Governo argentino interpreta erroneamente estudo para alegar que Brasil liderou uma campanha anti-Argentina
ROTANEWS176 11/08/2026 22:31
Por Agustin BAGNASCO / AFP Argentina / AFP Brasil
A Argentina e o Brasil vivem uma crise diplomática desde o fim de julho de 2026, após acusações do presidente argentino, Javier Milei, contra seu homólogo brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Milei e seu chanceler acusaram o Brasil de promover uma “campanha anti-Argentina” nas redes sociais com base em uma interpretação equivocada de um estudo da Monitor Digital divulgado em 24 de julho. A consultoria analisou a origem das menções à Argentina nas plataformas digitais entre dezembro de 2022 e julho de 2026, mas descartou a existência de uma campanha coordenada.
“Quem colocou mais dinheiro nessa campanha anti-Argentina? O governo do Brasil, 25% dos recursos saíram do governo do Brasil” , afirmou Milei em 26 de julho à Radio Mitre.
A acusação foi feita um dia após o mandatário argentino participar da oficialização de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência pelo Partido Liberal e como adversário de Lula na eleição de 2026.
Em 2 de agosto, Milei voltou a acusar Lula e chamá-lo de “corrupto” em uma entrevista para o veículo La Nación. Três dias depois, o chanceler argentino Pablo Quirno fez novas críticas no veículo Infobae. “22% das mensagens da campanha anti-Argentina vieram do Brasil, seguido por México” , disse.
“É evidente que também há dinheiro envolvido nisso. Não tenho provas para incriminar ninguém no governo, mas certamente veio do Brasil” , afirmou o ministro das Relações Exteriores.
Embora não tenham mencionado diretamente, o presidente e o chanceler argentino fizeram referência nas redes sociais e em veículos de comunicação aos resultados de um estudo da consultoria Monitor Digital . Mas o levantamento foi interpretado de forma errônea para sustentar as acusações contra o Brasil.
Em sua conta do X, Milei compartilhou várias vezes um infográfico da conta Encuestas Argentinas que replicou os dados da Monitor Digital.

Reprodução/Foto-RN176 Captura de tela feita em 6 de agosto de 2026 de uma publicação no X da conta do presidente Javier Milei
Esse estudo foi publicado cinco dias depois do fim da Copa do Mundo, em 19 de julho, em que a Argentina alcançou o segundo lugar.
Durante e após o Mundial, milhares de mensagens difundidas nas redes sociais e em veículos de comunicação acusaram os argentinos de serem arrogantes, provocadores, racistas e violentos.
A consultoria identificou que a conversa sobre a Argentina nas redes sociais foi liderada por publicações do Brasil com 22,1%; seguida de México com 14,8% e Estados Unidos com 13% durante o período estudado.
Mas o Monitor Digital não se concentrou em publicações feitas somente durante o campeonato, e sim em um período que se estendeu de dezembro de 2022 a julho de 2026.
Além disso, o ranking incluído no estudo, e replicado por Milei, mostra o número de publicações que mencionam a Argentina sem especificar se são elogios ou críticas.
O único caso em que se analisa o teor das mensagens sobre o país é no mês de julho, quando se registrou “54,7% de sentimento positivo frente a 44,9% negativo”, mas sem especificar de quais países eram as publicações.
Publicações orgânicas
A consultoria responsável pelo estudo afirmou que a conversa sobre a Argentina foi “impulsionada principalmente por uma audiência jovem, masculina, fãs de futebol e de língua espanhola” .
“Trata-se de um grupo social muito definido no universo das redes globais que vem impulsionando o intenso debate sobre os argentinos, bem diferente da crença generalizada de que a discussão é promovida por interesses específicos de certos países que querem lançar uma campanha ‘anti-Argentina’” , diz o relatório.
Uma conclusão similar foi publicada em 26 de julho pela consultoria Inteligência Analítica em um estudo com o título “A conversa hostil sobre Argentina”, que analisou a interação nas redes sociais durante e depois da final da Copa do Mundo.
O estudo analisou 587.907 publicações de 325.627 usuários no X e identificou que as contas possuíam, em média, 7,46 anos e que apenas 0,29% delas foram criadas após o início da Copa do Mundo.
Além disso, houve uma média de 1,81 publicações por conta. “Esse é o perfil de uma participação massiva de baixa intensidade ( …) Uma operação coordenada apresenta o padrão oposto: menos contas, mais volume em cada”, explica a consultoria.
O estudo também identificou que os usuários não formaram grupos fechados que interagiram entre si, algo típico em campanhas orquestradas. Pelo contrário, a estrutura era a de uma conversa aberta entre estranhos.
O governo brasileiro anunciou em 4 de agosto que irá manter as relações com a Argentina reduzidas ao nível de encarregado de negócios “enquanto persistirem os ataques verbais do presidente Javier Milei contra as instituições brasileiras” , segundo disse uma fonte do Ministério das Relações Exteriores do Brasil à AFP.
FONTE: AFP



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