A ciência da felicidade         

ROTANEWS176  07/11/2026  08:45 

BUDISMO E SOCIEDADE DIRETO DA REDAÇÃO DA EDITORA BRASIL SEIKYO=EBS

A gentileza como caminho para o bem-estar e sua relação, no budismo, com a construção da paz

Reprodução/Foto-RN176 Desenhos artístico de pessoas de ilustrativo da matéria

Há exatamente trinta anos, uma conferência promovida em Tóquio pelo Movimento das Pequenas Gentilezas do Japão (Tokyo Small Kindness Movement) deu origem à proposta de difundir a gentileza pelo mundo. Formalizado em 2000, o movimento passou a celebrar, em 13 de novembro, o Dia Mundial da Gentileza, com o objetivo de inspirar pessoas e unir nações em torno dessa causa.

É amplamente reconhecido que a gentileza proporciona conforto e bem-estar. A ciência, porém, vem demonstrando que seus efeitos alcançam diretamente a saúde física e mental. Pesquisas divulgadas pela revistaHarvard Medicine mostram, por exemplo, que gestos gentis estimulam a liberação de serotonina e dopamina — associadas à felicidade —, ativam áreas do cérebro ligadas ao sistema de recompensa e reduzem os níveis de cortisol, relacionado ao estresse. Os estudos também ressaltam a importância do altruísmo e das relações humanas de qualidade.1

Desde que o buda Shakyamuni estabeleceu o budismo, no século 6 a.E.C., seus ensinamentos incentivam atitudes de empatia, cortesia e encorajamento mútuo. Fundamentados no respeito absoluto pela dignidade da vida, esses princípios, hoje praticados em todo o mundo, por meio da Soka Gakkai, reúnem diversos elementos associados à gentileza. A figura do bodisatva é uma delas, ação benevolente que podemos aprender para nossas relações.

No volume 22, da Nova Revolução Humana, obra do pacifista Dr. Daisaku Ikeda escrita sob o pseudônimo de Shin’ichi Yamamoto, o autor aprofunda o tema ao refletir sobre a bondade:

— A bondade pode, à primeira vista, ser encarada apenas como algo restrito ao contexto da brandura, gentileza e serenidade, mas para ser bom exige um esforço enorme. Bondade significa consideração pelos outros, empatia pela situação da outra pessoa. Só podemos demonstrar verdadeira consideração pelos outros tendo empatia por eles e compartilhando sua agonia e sofrimento, ajudando-os a encontrar uma saída. Para isso, precisamos possuir firmes convicções internas e vigorosa energia.2

Ao respeitarem a individualidade de cada pessoa e acolherem suas dores, os integrantes da Soka Gakkai realizam atividades que, inspiradas pelo desejo do Buda de promover a felicidade de todos, criam ambientes nos quais a gentileza surge de modo leve e natural. A proposta é clara: não deixar ninguém para trás.

Nesta edição, reunimos reflexões alicerçadas nas orientações de Ikeda sensei que reafirmam o propósito da Soka Gakkai de construir relações autênticas, pautadas na solidariedade, e de promover o avanço rumo a uma era do humanismo.

O budismo acolhe todas as pessoas, sem distinção?

Daisaku Ikeda: Em uma das escrituras budistas, Shakyamuni fala sobre os temperamentos e as circunstâncias diferentes das pessoas utilizando a metáfora de que existem lótus com flores azuis, flores vermelhas e flores brancas; alguns vivem na água, alguns flutuam na superfície e outros se erguem acima dela. Dez pessoas terão dez desafios diferentes para contar; uma centena de pessoas terá uma centena para contar. Nosso objetivo é compartilhar e desafiar cada obstáculo com todo o nosso ser para que todos possam ter uma vida de felicidade e triunfo.3

Que aprendizados podemos extrair da prática do bodisatva Jamais Desprezar?

Daisaku Ikeda: Ele reconhecia e se curvava em reverência à natureza de buda supremamente nobre em cada um com quem se encontrava. Sua prática, portanto, implicava demonstrar o mais elevado respeito a todos os seres humanos, com base na profunda convicção na dignidade da própria vida, bem como na vida dos outros.

A prática dele era pautada pela total não violência e mantinha o compromisso integral com a busca do diálogo. Mesmo que sofresse ataques físicos com paus e pedras, nunca reagia com violência. (…)

Falando sobre o significado sublime e vasto do nosso movimento em prol do kosen-rufu, Toda sensei disse que se trata de uma luta para elevar o estado de vida da humanidade. A prática do bodisatva Jamais Desprezar — de demonstrar respeito a cada indivíduo — assen­ta os alicerces desse grandioso empreendimento.4

Como estabelecer uma conexão genuína com o coração do outro?

Daisaku Ikeda: O espírito do diálogo dá origem ao processo da reciprocidade, no qual as transformações em nós mesmos produzem transformações nos outros. Nichiren Daishonin expõe esse princípio por meio da seguinte metáfora: “Se você se curvar em reverência diante do espelho, a imagem refletida também se curvará a você com a mesma deferência”.5Independentemente de quem se encontre do outro lado, o diálogo sincero e aberto, fundamentado na confiança e no respeito pela dignidade interior suprema do interlocutor, acabará por abrir o coração dessa pessoa, produzindo uma sintonia de coração a coração. Convictos dessa verdade, cumpre-nos perseverar em empreender esforços resolutos. Creio com firmeza que o espírito de compreensão mútua nascido do diálogo gera um poder e uma energia imensuráveis para transformar e aprimorar a sociedade.6

Encontros Soka

Eventos nos quais prevalece o acolhimento gentil

Lawrence Edward Carter Sr. é decano fundador da Capela Internacional Martin Luther King Jr. no Morehouse College, onde também atua como professor de religião. Possui mestrados e doutorado. É, ainda, ministro batista. Ao longo de sua trajetória, o Dr. Carter tem se dedicado a promover a visão de paz e justiça de Martin Luther King Jr. por meio de diversas iniciativas. É de sua autoria o livro O Pastor Batista e Seu Mestre Budista, publicado pela Editora Brasil Seikyo. Na obra, o Dr. Carter relata experiências e apresenta a visão mais ampla que desenvolveu sobre o diálogo inter-religioso e a educação global após conhecer o Dr. Daisaku Ikeda.

Num dos trechos, ele destaca o papel das reuniões de palestra e dos encontros de diálogo humanístico da Soka Gakkai Internacional (SGI) nos quais vivenciou a força do encorajamento mútuo. Ele descreve:

Ao se reunirem, os membros da SGI realizam sua tradicional recitação como forma de devoção. Entretanto, suas reuniões são coordenadas por companheiros de fé, não por sacerdotes vestindo mantos clericais e conduzindo ritos cerimoniais. Depois da recitação coletiva, em vez de a ordem da cerimônia consistir de leituras e de sermões, com os quais estou habituado, compõe-se de um diálogo alegre e, na maioria das vezes, muito animado sobre vários assuntos. Devo confessar que, a princípio, as reuniões deles me pareceram mais um grupo de amigos papeando durante o café do que os cultos com os quais estava acostumado. Mas, ao verificar o conteúdo dos diálogos, senti-me inspi­rado pela genuína devoção, disposição de se expor, e pelo espírito de encorajamento mútuo que permeavam aqueles encontros quando compartilhavam abertamente suas adversidades pessoais. (…)

Passei a entender que as reuniões da SGI são repletas de novas apresentações e constante otimismo. Os diálogos são verdadeiros banquetes de palavras, ideias e possibilidades positivas.1

Concebidas como uma fonte revitalizante de coragem, sabedora e esperança, as reuniões de palestra são atividades que estimulam o apoio recíproco. Nelas, os membros e as lideranças da SGI estão sempre prontos a oferecer uma palavra gentil e, mais que isso, compartilhar a prática do Nam-myoho-renge-kyo, capaz de transformar angústias e sofrimentos em uma nova trajetória de vida, plena e feliz.

Nota:

1.CARTER, Lawrence Edward Sr. O Pastor Batista e seu Mestre Budista. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 164-165.

Notas:

1. Disponível em: https://magazine-hms-harvard-edu.translate.goog/articles/health-benefits-kindness?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge. Acesso em: 27 out. 2026.

2. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 22, p. 262, 2019.

3. WAHID Abdurrahman; IKEDA Daisaku. A Sabedoria da Tolerância. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 170.

4. Brasil Seikyo, ed. 2.320, 23 abr. 2016, p. B2.

5. The Record of the Orally Transmitted Teachings[Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, p. 165.

6. IKEDA, Daisaku; RADHAKRISHNA, Neelakanta. O Legado de Gandhi. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, p. 230, jul. 2026.

FONTE: EDITORA BRASIL SEIKYO=EBS

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