Lula manda recado para Trump na ONU: ‘A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável’

ROTANEWS176 23/09/2025 19:03

Por Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

Reprodução/Foto-RN176 O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em 23 de setembro de 2025.© REUTERS – Jeenah Moon

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a tribuna da Assembleia Geral da ONU para responder, nesta terça-feira (23), às recentes medidas do governo de Donald Trump contra o Judiciário e as instituições democráticas brasileiras. “Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia”, afirmou o brasileiro, em seu discurso para a plateia de líderes estrangeiros. “A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável”, enfatizou Lula.

Segundo manda a tradição, desde 1955, o presidente brasileiro é o primeiro líder a discursar na reunião de líderes da Assembleia Geral das Nações Unidas. Por ser o primeiro e anteceder o discurso do país anfitrião, os Estados Unidos, a fala do Brasil costuma ser atentamente observada pela imprensa internacional.

As novas sanções determinadas na véspera pelo governo americano — com a aplicação da Lei Magnitsky à esposa do ministro Alexandre de Moraes e a suspensão do visto do advogado-geral da União, Jorge Messias, além de outras cinco autoridades — injetaram ainda mais tensão na relação bilateral com os Estados Unidos. “Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias. Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil. Não há pacificação com impunidade”, afirmou o presidente.

Desde as primeiras frases, Lula apontou: “Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder. Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra.”

Defesa da democracia brasileira

Lula também fez referência direta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro: “Há poucos dias, e pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado Democrático de Direito. Foi investigado, indiciado, julgado e responsabilizado pelos seus atos em um processo minucioso. Teve amplo direito de defesa, prerrogativa que as ditaduras negam às suas vítimas.”

E concluiu com um recado: “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis.”

Crítica aos extremismos e defesa da democracia

A defesa da democracia será também tema da segunda edição do fórum organizado por Brasil, Chile, Colômbia, Espanha e Uruguai, à margem da Assembleia Geral. O encontro reunirá líderes de 30 países, mas, por decisão consensual dos organizadores, os Estados Unidos não foram convidados.

Na ONU, Lula antecipou a discussão: “Democracias sólidas vão além do ritual eleitoral. Seu vigor pressupõe a redução das desigualdades e a garantia dos direitos mais elementares: a alimentação, a segurança, o trabalho, a moradia, a educação e a saúde. A democracia falha quando as mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros e familiares. Ela perde quando fecha suas portas e culpa os migrantes pelas mazelas do mundo. A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo.”

Lula celebrou a confirmação pela FAO de que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome neste ano de 2025. “Mas no mundo, ainda há 670 milhões de pessoas famintas e cerca de 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar. A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza”, apontou.

Reforma da ONU e ampliação do Conselho de Segurança

Lula aproveitou os 80 anos da ONU para cobrar mudanças institucionais na organização. “Um passo fundamental é uma reforma abrangente, que contemple também um Conselho de Segurança ampliado. Poucas áreas retrocederam tanto como o sistema multilateral de comércio. Medidas unilaterais transformam em letra morta princípios basilares, desorganizam cadeias de valor e lançam a economia mundial em uma espiral de preços altos e estagnação. É urgente refundar a OMC em bases modernas e flexíveis.”

Críticas aos ataques a barcos venezuelanos

Sobre a América Latina, Lula advertiu: “Na América Latina e Caribe, vivemos um momento de crescente polarização e instabilidade. Manter a região como zona de paz é nossa prioridade. Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento. O Haiti tem direito a um futuro livre de violência. E é inadmissível que Cuba seja listada como país que patrocina o terrorismo.”

Lula cobra cumprimento das metas climáticas

Com a COP30 marcada para novembro, em Belém, Lula fez cobranças diretas: “Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática. O ano de 2024 foi o mais quente já registrado. A COP30 será a COP da verdade. Sem o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas, caminharemos de olhos vendados para o abismo.”

Ele anunciou que o Brasil se comprometeu a reduzir entre 59% e 67% suas emissões e apresentou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, destinado a remunerar países que mantêm suas florestas em pé.

Guerra em Gaza

O presidente brasileiro reforçou a necessidade de encontrar um caminho pacifico para o conflito no Oriente Médio.

O reconhecimento da Palestina por parte da França e outros países no marco da discussão da implementação de uma solução de dois Estados, abriu o precedente para que líderes pudessem criticar mais abertamente a postura de Israel na região.

Lula, que já havia classificado as ofensivas do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de genocídio, voltou a usar o termo na tribuna das Nações Unidas.

“Nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza. Ali, sob toneladas de escombros, estão enterradas dezenas de milhares de mulheres e crianças inocentes. Esse massacre não aconteceria sem a cumplicidade dos que poderiam evitá-lo. O povo palestino só sobreviverá com um Estado independente e integrado à comunidade internacional.”

Sobre a Ucrânia, defendeu uma saída negociada: “No conflito na Ucrânia, todos já sabemos que não haverá solução militar. É preciso pavimentar caminhos para uma solução realista, levando em conta as legítimas preocupações de segurança de todas as partes.”

Homenagem a Mujica e ao Papa Francisco

Lula encerrou seu pronunciamento lembrando figuras importantes que morreram este ano: “Se ainda estivessem entre nós, Pepe Mujica e o papa Francisco provavelmente usariam esta tribuna para lembrar que o autoritarismo, a degradação ambiental e a desigualdade não são inexoráveis; que os únicos derrotados são os que cruzam os braços, resignados; que podemos vencer os falsos profetas e oligarcas que exploram o medo e monetizam o ódio.”

FONTE: RFI