Viver com coragem e esperança            

ROTANEWS176 01/11/2025 13:30

CONHEÇA O BUDISMO DIRETO DA REDAÇÃO DO JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS

A visão budista sobre a natureza da vida e da morte lança luz sobre um dos sofrimentos básicos do ser humano e proporciona ampla perspectiva para avançarmos no caminho da felicidade absoluta

Reprodução /Foto-RN176 Foto de ilustrativa da matéria 

A questão da vida e da morte é sempre algo que desperta ao menos muita curiosidade em todos. Diversos fatores trazem dúvidas e temor natural para as pessoas, independentemente de sua posição socioeconômica, do grau de escolaridade, da idade e de outros aspectos. O único fato evidente é que a morte é certa e representa irremediavelmente o fim de um ciclo. Mas como enfrentar a perda de pessoas próximas e de entes queridos? Como encarar a própria morte?

A elevada filosofia de vida do Budismo de Nichiren Daishonin oferece uma visão concreta sobre essa questão complexa da vida e da morte. Essa visão não se restringe apenas aos aspectos teórico e filosófico, e sim a algo que, acima de tudo, nos propicia coragem e esperança.

O que acontece após a morte?

O presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), Dr. Daisaku Ikeda, apresenta a visão budista sobre o tema:

O ensinamento supremo do budismo, que concebe o “estar vivo” como um estado ativo e a morte como um estado latente, fornece uma visão profunda e magnífica da eternidade da vida.

Além disso, elucida a unicidade da vida e da morte. A vida é ativada por uma força subjacente maravilhosa. Quando em seu estado latente, entra em contato com as causas e condições apropriadas, torna-se manifesta e assume a forma de um ser vivo dinâmico detentor de rica individualidade. Depois, essa vida flui e caminha serenamente para a morte. Mas, ao entrar em sua fase potencial latente, armazena uma nova energia, aguardando a nova fase de vida que se seguirá. (…)

Essa é a natureza da vida e da morte inerente a tudo, e o Nam-myoho-renge-kyo compõe a base desse ritmo intrínseco do universo.1

Viver com alegria

Como vimos, o Budismo de Nichiren Daishonin baseia-se no conceito de “eternidade da vida”, mas também expõe que não se pode evitar os sofrimentos de nascimento, envelhecimento, doença e morte, pois são inerentes à vida de todas as pessoas, conforme Ikeda sensei ressalta:

A mensagem essencial do budismo não é pessimista ou negativa nem representa um otimismo infundado. O budismo examina diretamente o sofrimento da vida e propõe uma filosofia para se viver com alegria lidando ativamente com a realidade, em vez de tentar se esquivar dela. Não se pode desfrutar a felicidade verdadeira fugindo do sofrimento. Uma alegria indestrutível, perene e inesgotável só pode ser alcançada distinguindo a verdadeira realidade do sofrimento a que gostaríamos de nos furtar, e encarar com coragem o desafio e vencê-lo.2

A transformação da nossa condição de vida interior por meio da prática budista com base na recitação do Nam-myoho-renge-kyo nos permite aprofundar nossa compreensão da questão da origem dos sofrimentos à luz da lei de causa e efeito. Assim, podemos atuar com empenho para não sucumbir a eles, mas viver com coragem, sabedoria e compaixão a fim de direcionar nossa vida e a das outras pessoas para a felicidade inabalável.

Entes queridos

Num trecho do escrito O Inferno é a Terra da Luz Tranquila,3 Nichiren Daishonin encoraja, com base em profundos princípios do budismo, uma seguidora, a monja leiga de Ueno, que havia perdido o esposo, supostamente quase dez anos antes, deixando-lhe nove filhos pequenos para criar. Ele diz:

Quando [seu marido] estava vivo, ele era um buda em vida, e agora é um buda em morte. Ele é um buda tanto em vida quanto em morte. Esse é o significado da doutrina fundamental chamada atingir o estado de buda na forma que se apresenta.4

Sobre essa passagem, o presidente Ikeda comenta:

Com profundo afeto, ele conforta a monja leiga de Ueno, dizendo-lhe que todos os que compartilham os laços da fé — os companheiros praticantes, os familiares ou os amigos —, sem falta, voltarão a se encontrar.

Ser um “buda em vida” significa evidenciar nosso estado de buda inato com base nessa consciência, e nos levantarmos com coragem no palco de nossa missão, sem nos afastar da dura realidade cotidiana, não só pela felicidade pessoal, mas também pela felicidade dos demais. Ser um “buda na morte” significa entrar no caminho eterno da infinita alegria da Lei4 depois de ter cumprido a missão nesta existência, e empreender a viagem seguinte pelo caminho do bodisatva para continuar cumprindo o juramento de conduzir as pessoas à iluminação.5

Portanto, viver com base no cumprimento da própria missão e do juramento seigan de nos dedicar ao kosen-rufu ilumina nossa vida, existência após existência, e nos guia através das sucessivas ondas da vida e da morte pela rota segura da verdadeira felicidade. Assim, o Mestre expressa:

O propósito desta existência é desenvolver elevada condição de vida, por meio da qual possamos sentir verdadeiramen-te que somos budas em vida e na morte e que tanto uma condição como a outra estão imbuídas de alegria. Em outras palavras, cada momento desta existência é uma luta para consolidar essa condição de vida.6

Expandir nossa condição de vida

Neste trecho de um de seus discursos, Ikeda sensei cita um ensinamento de Shakyamuni para explicar a eternidade da vida e como o budismo nos capacita a ultrapassar o sofrimento da morte

Na época de Shakyamuni, havia uma mulher que tinha perdido sua amada criança devido a uma doença. Alucinada com a perda, ela andou pelo vilarejo carregando-a em seu colo e implorando por ajuda a todos os que encontrava: “Por favor, dê-me um remédio para curar minha criança”.

Sentindo pena dela, uma dessas pessoas a levou até Shakyamuni. Quando o Buda ouviu sua história, ele disse: “Não se atormente. Irei lhe dar um bom remédio. Vá até o vilarejo e me traga sementes de mostarda. Porém, as sementes devem ser de uma família que não tenha perdido alguém querido”.

A mulher percorreu todo o vilarejo, indo de porta em porta, mas não havia uma família sequer que não tivesse perdido alguém querido. Por fim, ela se deu conta de que todos os seres humanos morrem, e ela não era a única a sofrer com isso. Para compreender a eternidade da vida, ela se tornou seguidora de Shakyamuni e, tempos depois, passou a ser respeitada como uma venerável.1

Ao usar os meios apropriados e enviá-la em busca das sementes de mostarda, Shakyamuni libertou-a e restaurou a paz no coração dessa mulher mergulhada em profunda dor. Ele a ajudou a despertar para a profunda sabedoria embasada na eternidade da vida.

O mais importante é expandir nossa condição interior de vida. Quando pensamos somente em nós mesmos, cada vez mais nos fechamos em nosso pequeno ego, ou “eu menor”. Em contraste, quando trabalhamos por um objetivo maior e que a tudo abrange — pela Lei, pela felicidade das pessoas e pelo bem-estar da sociedade —, nosso coração cresce e desenvolvemos um “eu maior” por meio das “maravilhosas funções da mente”.2 Quando mantemos um coração grandioso, usufruímos uma felicidade imensa e verdadeira. Os sofrimentos que, no primeiro instante, eram um enorme fardo numa condição de vida baixa se tornam insignificantes e, com serenidade, nos colocamos acima deles. Espero que todos vocês conduzam uma existência em que possam demonstrar tal brilho e a prova real das “maravilhosas funções da mente”.

Fonte:

Cf. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. Parte 1: A Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 170-171.

Notas:

1. Essa famosa parábola sobre uma mulher chamada Kisa Gotami aparece em Therigatha Atthakatha [Comentário do Therigatha].

2. The Record of the Orally Transmitted Teachings [Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, p. 30.

Saiba mais

Veja sobre o tema “Eternidade da vida” no Guia para a Vitória que acompanha esta edição do Brasil Seikyo.

Em seu livro Desvendando os Mistérios da Vida e da Morte, o presidente Ikeda aborda a visão budista sobre este tema fundamental. Acesse aqui .

Fonte:

Brasil Seikyo, ed. 2.541, 28 nov. 2020, p. 17.

Notas:

1. Brasil Seikyo, ed. 2.260, 31 jan. 2015, p. B3.

2. Ibidem.

3. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 477, 2020.

4. Infinita alegria da Lei: A felicidade suprema e ilimitada do Buda, o benefício da Lei Mística.

5. Brasil Seikyo, ed. 2.541, 28 nov. 2020, p. 17.

6. Ibidem.

FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS