ROTANEWS176 08/11/2025 10:15
ENCONTRO COM O MESTRE
Por Dr. Daisaku Ikeda
Nestes trechos selecionados de incentivos de Ikeda sensei, ele esclarece como uma visão correta sobre a eternidade da vida é crucial para sermos verdadeiramente felizes.

Reprodução/Foto-RN176 Ikeda sensei e sua esposa Kaneko assistem a apresentação dos companheiros durante festival cultural da SGI-Panamá (22 fev. 1981). Foto: Seikyo Press. Ele foi um filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista, era Mestre e Presidente da Soka Gakkai Internacional – SGI
O budismo ensina a eternidade da vida, mas não como uma resposta simplista à esperança de imortalidade acalentada pelas pessoas. Os ensinamentos budistas sobre impermanência de todos os fenômenos e as quatro nobres verdades (que elucidam as causas e a solução do sofrimento humano)1 revelam diretamente a realidade do sofrimento inerente à vida, uma realidade que as pessoas tentam evitar. Shakyamuni não tentou encobrir a realidade da existência oferecendo algum mito ou ficção consoladora; ele a encarou com pura objetividade. Tudo o que nasce, morre. Ele afirmou ser esta a verdade subjacente à existência.
Por que morremos? A vida e a morte são completamente separadas uma da outra? Ou são intimamente inter-relacionadas? Há uma continuidade que está implícita na vida em si? Refletindo sobre a própria vida, Shakyamuni buscou respostas para essas questões com coragem, tenacidade e objetividade. E a verdade que ele compreendeu é que a vida é eterna.
A existência humana abarca tanto a vida como a morte. Ela flui eternamente, com uma força poderosa, repetindo um ciclo alternado de fases manifestas e latentes. Shakyamuni percebeu esse fato no fluxo da própria vida.
A filosofia dele não é uma teoria da imortalidade da alma, decorrente de um apego obstinado à vida, mas uma sólida afirmação da eternidade fundamentada no reconhecimento da lei de causa e efeito que se manifesta em cada vida.
O significado da morte nessa concepção de eternidade é que a morte existe em benefício da vida. Assemelha-se ao ato de dormir, processo que nos provê o descanso de que necessitamos para despertar novamente. A morte constitui um “meio apropriado” da vida. O propósito da morte é fazer a vida brilhar com maior intensidade, ao passo que a vida consiste na atividade inata da existência. Vida e morte não se encontram em posições opostas; a morte existe em benefício da vida. Esse é o significado do ensinamento do Sutra do Lótus de “entrar no nirvana como um meio apropriado”.2
A mensagem essencial do budismo não é pessimista ou negativa nem representa um otimismo infundado. O budismo examina diretamente o sofrimento da vida e propõe uma filosofia para se viver com alegria lidando de forma ativa com a realidade, em vez de tentar se esquivar dela. Não se pode desfrutar a felicidade verdadeira fugindo do sofrimento.
Uma alegria indestrutível, perene e inesgotável só pode ser alcançada quando encaramos a verdadeira realidade do sofrimento a que gostaríamos de nos furtar e aceitamos com coragem o desafio e vencê-lo.
IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. Parte 1: A Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 306-308.
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Se atingirmos o estado de buda nesta existência, esse estado permeará para sempre a nossa vida. Existência após existência, desfrutaremos vidas afortunadas, com saúde, riqueza, inteligência, circunstâncias favoráveis e boa sorte. Cada um de nós terá uma missão única, e nasceremos com uma forma apropriada para cumprir essa missão. Esse estado de vida é eterno; jamais poderá ser destruído.
É precisamente para que usufruam dessa felicidade perene que insisto sempre que se dediquem à prática budista e consolidem o estado de buda nesta existência. Não se trata apenas de opinião pessoal minha, refere-se ao ensinamento de Nichiren Daishonin.
É crucial, portanto, que jamais nos desviemos da trajetória que conduz ao estado de buda e que avancemos sempre com paciência e persistência pela estrada do kosen-rufu e da prática budista.
Pode haver ocasiões em que não tenhamos disposição de fazer algo ou que desejemos fazer uma pausa. É perfeitamente natural, uma vez que somos mortais comuns. O mais importante é nos mantermos na trajetória, continuarmos seguindo em frente de forma persistente no caminho do estado de buda, encorajando uns aos outros.
Se um avião se desvia de sua rota ou um carro muda de direção por distração de quem o conduz, o mais provável é que ocorra um acidente ou a pessoa não chegue ao seu destino. De modo análogo, se deixarmos nossa vida se desviar de seu curso, nós também podemos colidir e despencar no infortúnio e na miséria. Apesar de não ser visível aos olhos, há um caminho ou curso na vida. Existe, sem dúvida, um caminho que leva à felicidade absoluta — a estrada da Lei Mística.
Contanto que continuemos nesse caminho sem abandonar a prática budista, sem falta desfrutaremos uma existência de plena realização material e espiritual.
Ibidem, p. 302-303.
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Na perspectiva da eternidade, até mesmo um século não passa de um instante. A pura verdade, como afirma [Nichiren] Daishonin, é o fato de que “este é o último momento de sua vida”.3 O presidente Josei Toda também dizia: “Na verdade, praticamos o budismo para o momento de nossa morte”.
Nenhuma certeza é maior do que a morte. Por esse motivo, é vital que assumamos para nós a tarefa de acumular o tesouro do coração que perdurará pela eternidade. Apesar disso, a maioria das pessoas protela esta que é a mais primordial de todas as tarefas, ou a posterga para algum dia no futuro.
Não há nada tão importante quanto aquilo que o budismo denomina de “a grande questão da vida e da morte”. Comparado a essa questão crucial, todo o resto é secundário — fato que se evidencia no momento da morte.
Alguém que acompanhou os momentos finais de muitas pessoas no leito de morte observou: “Em seus derradeiros dias, ao que tudo indica, as pessoas frequentemente relembram sua vida como se estivessem fitando um vasto panorama. O que parece se sobressair não são fatos como ter comandado uma empresa ou ter sido bem-sucedido nos ne-gócios, mas como elas viveram, quem amaram, quem trataram com gentileza, quem magoaram. Todas as emoções mais profundas — o sentimento de terem sido fiéis às suas crenças e vivido uma existência realizada, ou o remorso doloroso de terem traído os outros — precipitam-se sobre elas à medida que se aproximam da morte”.
A consciência da morte confere um significado maior à nossa vida. Despertar para a realidade da morte nos propicia buscar o eterno e nos motiva a valorizar ao máximo cada momento.
E se não houvesse morte? A vida prosseguiria sem fim, e é provável que se tornaria terrivelmente maçante.
A morte nos faz valorizar o presente. Afirma-se que a civilização moderna ignora ou rejeita a morte. Não é coincidência o fato de se tratar também de uma civilização caracterizada pela busca desenfreada dos desejos. Uma sociedade ou civilização, bem como o indivíduo, que tentar fugir da questão fundamental da vida e da morte entrará em decadência espiritual por se restringir à atitude de viver o momento e não conseguir enxergar além.
Ibidem, p. 304-305.
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A base da verdadeira felicidade é construída por meio dos esforços da própria pessoa, de sua sabedoria e boa sorte. O propósito da nossa prática budista é solidificar essa base, ao passo que nossas atividades na Soka Gakkai servem para nos fortalecer e nos empoderar. Aí reside o significado das palavras de Daishonin: “A pessoa prossegue em seu caminho na terra da natureza do Darma”.4
Daishonin também afirma que, onde quer que estejamos desfrutando a vida, nada de mal nos acontecerá; seremos corajosos como o rei leão.5
Desfrutaremos eternamente desse estado, que é o objetivo de nossa fé e prática budista.
Avançamos em nossa própria “terra” pela eternidade. Quando morre-mos, não vamos nem para o céu nem para as profundezas do inferno. Permanecemos na mesma terra e continuamos a encenar o emocionante drama de nossa missão por meio do ciclo de nascimento e morte. Seguimos em frente pela estrada dourada do kosen-rufu por todo o sempre.
Daishonin nos orienta para que avancemos no firme solo de nosso estado de buda com alegria tanto em vida como na morte e que continuemos solidificando essa base essencial. Essa é a profunda concepção de vida e morte ensinada no Budismo de Nichiren Daishonin.
Ibidem, p. 319.
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Viver vigorosamente ultrapassando todas as dificuldades é prova de que alguém compreende a eternidade da vida. A eternidade da vida não é algo que verificamos com nossos olhos, mas algo em que podemos acreditar. (…) Por falar em otimismo, lembro-me do rosto sorridente do Dr. Norman Cousins. (…) Embora não praticasse o budismo, em sua crença na força do ser humano ele não era diferente de um budista. O Dr. Cousins escreveu, certa vez: “Ninguém precisa recear a morte. Precisamos apenas recear morrer sem reconhecer nossa maior força — a força de nossa livre vontade para dar a vida pelos outros. Se algo é revivido na vida dos outros devido a nós, então nos aproximamos da imortalidade”.
Quando nos devotamos à felicidade dos outros, empreendemos a luta de um bodisatva por nossa livre vontade, a imensa energia vital de nossa vida sem início ou fim surge em nosso ser. A vida eterna do Buda permeia nosso ser como uma onda crescente. Então, não há nada em nossa vida que não possamos mudar radicalmente para melhor.
Brasil Seikyo, ed. 1.525, 25 set. 1999, p. 4.
Notas:
1. “Quatro nobres verdades”: Doutrina fundamental do budismo que esclarece a causa do sofrimento e indica o caminho da emancipação. São as verdades do sofrimento, da origem do sofrimento, da cessação do sofrimento e do caminho para a cessação do sofrimento. Acredita-se que Shakyamuni tenha exposto as quatro nobres verdades no Parque dos Cervos em Varanasi, Índia, durante a primeira pregação que fez logo após ter atingido a iluminação. Essas verdades são: (1) toda existência é sofrimento; (2) o sofrimento é causado por fortes desejos egoísticos; (3) a eliminação dos fortes desejos egoísticos leva à cessação do sofrimento e capacita a pessoa a atingir o nirvana; e (4) existe um caminho pelo qual é possível erradicar de forma concreta esses desejos, a disciplina do caminho óctuplo. Esse caminho consiste em: (1) ideias corretas; (2) pensamento correto; (3) linguagem correta; (4) ações corretas; (5) modo de vida correto; (6) esforço correto; (7) intenção correta; e (8) meditação correta.
2. No Sutra do Lótus, Shakyamuni declara que a sua vida como Buda é eterna, mas como meio de ajudar os seres vivos a despertarem o espírito de procura, ele aparentemente entra no nirvana, ou extinção. Cf. The Lotus Sutra and its Opening and Closing Sutras [Sutra do Lótus e seus Capítulos de Abertura e Conclusão]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, cap. 16, p. 271.
3. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 225, 2017.
4. The Record of the Orally Transmitted Teachings [Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tradução: Burton Watson, p. 52.
5. Cf. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 431, 2017.
FONTE: JORNAL SEIKYO SHIMBUN=JSS










