Aprender para ser feliz

ROTANEWS176 17/01/2026  11:40  

ESPECIAL DIRETO DA REDAÇÃO DO JORNAL SEIKYO SHIMBUN=JSS

Ideais educacionais de Tsunesaburo Makiguchi transformam-se em ações no Brasil.

Reprodução/Foto-RN176 Estudantes atravessam região de mangue para chegar à escola Domiciano de Farias. Fotos: Seikyo Shimbun

Em 6 de junho de 2025, aniversário natalício de 154 anos de Tsunesaburo Makiguchi, educador e primeiro presidente da Soka Gakkai, o Seikyo Shimbun iniciou a publicação de uma série especial sobre as práticas da educação Soka em terras brasileiras. Veja, a seguir, uma síntese da parte que enfoca iniciativas promovidas no estado do Pará.

A educação Soka define o propósito da vida como a felicidade e acredita que todos possuem o poder inato de criar ilimitado valor.

Para conduzir uma vida feliz, é essencial cultivar e harmonizar a inteligência e o caráter, capazes de criar valor na vida e na sociedade. Por isso, a educação Soka utiliza como palco o “lugar onde a criança vive” — ou seja, sua comunidade — e transforma os costumes locais, a natureza e a história em materiais vivos de aprendizado, permitindo que os alunos sintam a conexão entre a sua realidade e o mundo.

Além disso, os educadores se envolvem de forma integral com os alunos, planejando e analisando as aulas continuamente, para que cada criança e cada jovem escolha, por si mesmo, um modo de vida que contribua com as pessoas e a sociedade. Essa é a essência da educação Soka.

Acompanhe, a seguir, histórias de educadores do estado do Pará que põem em prática esses ideais e conceitos na desafiadora realidade da região.

Aprendizado que conecta as crianças ao planeta

Vera Lobo, 62 anos, funcionária da Secretaria de Educação do Estado do Pará e responsável pela Divisão Feminina de subcoordenadoria, é uma autêntica integrante da Soka Gakkai. Nascida e criada em Belém, PA, é conhecida por todos na cidade. Ao se encontrar com cada pessoa, cumprimenta-a: “Olá! Está tudo bem contigo?”; “Tem algo te incomodando?; Não aguente tudo sozinho, viu?”. Com quem compartilha o budismo, ela diz: “Experimente recitar Nam-myoho-renge-kyo! Vai sentir seu coração mais leve!”. Com sua alegria contagiante e seu jeito acolhedor, já inspirou cerca de cinquenta pessoas a se tornar integrantes da Soka Gakkai.

Formada pela renomada Universidade Federal do Pará, atuou por trinta anos como professora em escolas públicas de ensino fundamental 2 e médio, ensinando espanhol e praticando a educação humanística Soka.

Em 2017, com a reforma do ensino médio no Brasil, foi introduzido o programa Projeto de Vida, que incentiva os alunos a refletir sobre o propósito e o valor da vida e sua conexão com o meio ambiente local e global. Ao ser escolhida para coordenar esse projeto na escola, Vera exclamou: “Isso tem tudo a ver com o movimento educacional que a Soka Gakkai vem promovendo!”.

Ela pôs essa filosofia em prática e, tanto a escola como a comunidade passaram por melhorias significativas. Em 2023, esse impacto chamou a atenção da Secretaria de Educação — justamente no ano em que Belém foi escolhida como sede da COP30, Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas.

A pedido da Secretaria, Vera foi nomeada coordenadora de Educação Ambiental. A partir do ano seguinte, a disciplina de educação ambiental tornou-se obrigatória em todas as séries das escolas estaduais, sendo também adotada por diversos municípios.

Para que o conteúdo fosse interdisciplinar, ela se dedicou à criação de materiais que conectassem o tema à história e ao ensino de línguas. Ela também lançou um movimento de confecção de cartazes ambientais, usando a arte para aprofundar a consciência ecológica de forma divertida. E, em par-ceria com o Instituto Soka Amazônia, ajudou a promover a exposição ambiental Sementes da Esperança e Ação em três locais da cidade.

Reprodução/Foto-RN176 Vera Lobo, ao centro, com estudantes. Ela é conhecida pelo seu jeito alegre e por estar sempre disposta a dialogar

Círculo de livros

Numa sala do segundo ano do ensino fundamental 1 da escola municipal Maria Eloíza de Castro, há um tapete redondo e colorido com vários livros dispostos em círculo. São obras que retratam, com emoção e sensibilidade, a vida de seres humanos e animais, e a importância de preservar a natureza.

Lá, a professora Odila Monteiro Bittencourt, responsável pela Divisão Feminina de distrito, convida os alunos: “Vamos escolher livremente um livro que pareça interessante!”.

As crianças pegam os livros e começam a ler com entusiasmo. Depois, colocam o livro escolhido em uma ecobag artesanal feita por Odila e o levam para casa.

No fim de semana, os alunos pedem aos familiares que leiam o livro para eles. Na semana seguinte, compartilham com os colegas da turma a alegria e a emoção que sentiram com a leitura.

Odila valoriza a leitura não apenas como uma “fonte de informação”, mas como uma “janela que conecta vidas”.

Reprodução/Foto-RN176 Professora Odila, ao fundo à dir., com uma das turmas de alunos para quem leciona

Para alcançar os objetivos da educação ambiental, mais que conhecer os problemas, é essencial sentir a riqueza da natureza e da vida. Essa sensibilidade só pode ser cultivada quando se experimenta a “felicidade de estar conectado com as pessoas e com a natureza”.

Muitas crianças que não gostavam de estudar mudaram completamente graças ao envolvimento de Odila. Antes das férias de verão, chegaram a dizer: “Ah não! Eu quero continuar indo à escola!”.

A diretora da escola, Arlene Figueiredo, expressa sua gratidão: “O coração humano e a sabedoria da professora Odila criam um ambiente educacional maravilhoso para nossas crianças”.

Várias visitas

A questão ambiental é uma luta contra o sentimento de desistência. Muitos pensam: “Não adianta, eu não posso fazer nada sozinho”. No Brasil, a desigualdade econômica também gera desigualdade educacional, o que contribui para esse sentimento de impotência.

Na escola estadual Acácio Felício Sobral, algumas famílias enfrentam dificuldades financeiras. Há pais que dizem: “Estudar não é necessário”. Então, colocam os filhos para trabalhar.

Na entrada da instituição, o professor de matemática Paulo Rocha, responsável pela Divisão Sênior de RM, dá as boas-vindas a todos. Ao seu redor, muitas crianças sorridentes se aproximam. Os alunos dizem em uníssono: “A forma como o professor Paulo ensina é fácil de entender e divertida!”.

O educador Paulo explica aos alunos que mesmo um país distante, como o Japão, também sofre os impactos das mudanças climáticas causadas pela destruição da Floresta Amazônica. Assim, ele conecta números relacionados a temas do cotidiano com geografia, economia e questões ambientais, ampliando o interesse e a curiosidade de todos.

O diretor da escola, Ricardo Barata, elogia: “É um professor que consegue despertar a motivação de qualquer aluno. E não só dentro da sala de aula. Ele visita várias vezes a casa de estudantes em situação econômica difícil e os encoraja com palavras de apoio”.

“Por que estudamos?” — “Para sermos livres, para sermos felizes”. Ao falar com sinceridade e dedicação, Paulo inspira tanto os alunos quanto os pais a se alegrar por seus filhos estudarem em sua escola.

A instituição, em parceria com órgãos públicos, oferece uma rede de apoio robusta, incluindo distribuição de alimentos e suporte à saúde mental.

Paulo presenteia cada aluno que vai prestar vestibular com uma caneta acompanhada de mensagens como “Você consegue!”, “Acredite em si mesmo!”. Muitos estudantes, motivados por esse gesto, se dedicam aos estudos e conquistam aprovações surpreendentes, deixando todos ao redor admirados com os resultados.

Reprodução/Foto-RN176 Professor Paulo Rocha, ao centro, com alunos da escola em que leciona

Cruzando o rio em pequenos barcos

No Pará, há escolas em que os alunos só conseguem chegar atravessando um afluente do rio Amazonas em pequenos barcos.

Essa é a realidade da escola Domiciano de Farias, localizada em uma ilha flutuante na região alagada próxima a Belém. Cerca de cem crianças e adolescentes saem diariamente de pequenas ilhas e comunidades ribeirinhas, enfrentando trajetos de trinta a sessenta minutos para frequentar as aulas.

Kelly Medeiros Penante, vice-responsável pela Divisão Feminina de RM, leciona nessa escola. Todas as manhãs, professores e funcionários começam com uma oração sincera: “Que todos cheguem em segurança, sem acidentes! Que possam aprender com alegria!”.

Reprodução/Foto-RN176 Educadora Kelly Penante

A ida à escola é feita, em sua maioria, junto com os próprios familiares dos alunos. Devido às mudanças climáticas típicas da região tropical, o rio pode se tornar perigoso e há dias em que não é possível ir até a instituição.

Mesmo assim, as crianças mal podem esperar para chegar à escola. “Porque quando conversamos com a professora Kelly, ficamos com mais disposição!”, dizem, com brilho nos olhos.

Utilizando como material complementar das aulas os livros do presidente Ikeda, como Juventude: Sonhos e Esperança, Kelly promove conversas profundas com os alunos.

“O que é personalidade?”, “O que é liberdade?” ,“O que é paz?”, “O que é felicidade?” — a cada respos-ta sincera e dedicada de Kelly, os olhos dos alunos brilham ainda mais. “Quero aprender mais!”, dizem, com entusiasmo.

Kelly sorri e concorda: “Quando a gente muda, o futuro e o ambiente também mudam!”.

FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO