A visão budista sobre a felicidade

ROTANEWS176 24/01/2026  10:20

CONHEÇA O BUDISMO DIRETO DA REDAÇÃO DO JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS

Reprodução/Foto-RN176 Foto humana de ilustração da matéria

Brasil Seikyo publica, na forma de perguntas e respostas, incentivos do presidente Ikeda sobre um dos principais temas da humanidade: como ser verdadeiramente feliz

Qual o propósito de praticarmos o budismo?

Presidente Ikeda: A felicidade é o propósito fundamental da vida. É também o propósito da fé. E é o propósito do budismo. Assim, é extremamente importante compreender o que é felicidade. (…)

Alguns possuem uma grande riqueza material, mas são infelizes, e podem até se tornar mesquinhos ou não fazer mais do que se envolver em discórdias e brigas. Por outro lado, é possível alguém carecer de recursos financeiros e ainda sentir imensa felicidade, cultivar um coração puro e enxergar a beleza em tudo, assim como poetas.

A felicidade é algo muito pessoal. De duas pessoas em circunstâncias semelhantes, uma pode estar infeliz, e a outra, feliz. Os seres humanos são diferentes e têm percepções distintas. A realidade da vida humana é infinitamente diversa. (…)

Ao sobreviver aos infortúnios trágicos da juventude e experimentar numerosas outras adversidades ao longo de nossa existência, no final, poderemos desfrutar uma vida muito mais rica, repleta de tremenda vitalidade e força interior.

Se a nossa vida for sempre um mar de águas calmas, nunca conseguiremos saborear a verdadeira felicidade. Desneces-sário dizer que o tesouro da felicidade não pode ser encontrado numa vida sossegada e ociosa. O diamante da felicidade só pode ser descoberto no desbravar dos recessos mais profundos das montanhas da vida por meio de grandes esforços e superações. Jamais estará na busca ociosa por diversão e prazer em meio às luzes ofuscantes e animadas da cidade, tampouco numa vida pacata. (…)

Em outras palavras, a felicidade e a infelicidade, em última análise, encontram-se dentro de nós. Conforme Nichiren Daishonin afirma: “O que importa é o coração”.1

Onde se encontra a felicidade?

Presidente Ikeda: As pessoas muitas vezes tendem a pensar em felicidade como algo abstrato e distante da sua realidade. Elas imaginam, por exemplo, que seriam mais felizes se mudassem para outro lugar, se desfrutassem uma vida diária mais prazerosa e plena ou se pudessem mudar de trabalho. Sempre pensam que a grama do outro lado é mais verde e depositam sua esperança em mudanças das circunstâncias externas. Os jovens são particularmente suscetíveis a essa tendência.

Entretanto, possuímos cada qual uma missão e habitamos onde devemos cumpri-la. É vitoriosa a pessoa que se firma no exato local em que se encontra e vive com perseverança e esperança, enfrentando com determinação as adversidades de sua vida. O curso de uma vida jamais deve ser como o das plantas aquáticas que não se assentam em lugar algum, sem rumo e sem propósito concretos. Por isso, digo: “Cave bem debaixo de seus pés, e aí encontrará uma fonte” e “Viva de um modo que seja verdadeiro para você”.

Como podemos manifestar a verdadeira felicidade?

Em Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente, Nichiren Daishonin afirma: “Recitar Nam-myoho-renge-kyo é o que significa ingressar no palácio de si mesmo”.2

Esse indestrutível estado de buda existe dentro de todos nós e pode ser descrito como um palácio da felicidade adornado por incontáveis joias de valor inestimável e brilho intenso. Acessamos esse palácio da nossa vida ao abraçar a fé na Lei Mística e recitar Nam-myoho-renge-kyo. Em outras palavras, Daishonin ensina que somos capazes de fazer o “palácio de si mesmo” brilhar com insuperável radiância. (…)

Como Daishonin afirma, nosso próprio estado de vida elevado é o eterno e indestrutível palácio, a verdadeira fortaleza da felicidade.

Quando a pessoa abre o palácio da própria vida, isso conduzirá ao descortinar do “palácio da felicidade” na vida de outras pessoas e do “palácio da prosperidade” na sociedade. Há uma continuidade que se processa entre aquela que abre o palácio da própria vida e as demais que fazem o mesmo. Este é um princípio maravilhoso do budismo.

Em uma sociedade complexa como a de hoje, em que todo cuidado é pouco para não sermos influenciados pela negatividade, é crucial cultivarmos a sabedoria para vivermos de forma consciente e significativa. Nossa prática budista nos capacita a abrir a nossa vida e a nos tornar felizes. Ao desenvolvermos e aprofundarmos continuamente a fé e a sabedoria, podemos vencer como seres humanos e conquistar contínuas vitórias ao longo da jornada da vida.

Qual a relação entre liberdade e felicidade?

O que é liberdade? Como podemos desfrutar plenamente a liberdade? Inúmeros sábios e filósofos ao longo dos séculos têm ponderado sobre isso. De fato, muito além dessa busca intelectual, todas as pessoas anseiam por liberdade. Todas desejam viver com liberdade, sem restrições ou limitações. A liberdade é um desejo humano inato. Mesmo que não possamos definir a liberdade com clareza, todos sabemos que é uma condição vital para a felicidade. (…)

Como os próprios seres humanos podem mudar, e como podemos compreender a verdadeira natureza da vida? Estes são os desafios mais fundamentais que a humanidade enfrenta. A esse respeito, a revolução religiosa que nós da Soka Gakkai estamos realizando com base nos princípios do Budismo Nichiren é fundamental. Todos vocês são nobres pioneiros neste empreendimento.

O nosso ambiente é importante, mas não é tudo, nem é absoluto. Toda sensei atingiu um estado de vida de liberdade eterna numa cela de prisão, o mais repressor dos ambientes.

Precisamos desenvolver a liberdade interior — uma verdadeira liberdade que existe num nível mais profundo do que aquele que podemos alcançar só mudando nosso ponto de vista ou nossa perspectiva intelectual. (…)

O propósito de nossa fé e prática budistas é alcançar tal estado de liberdade pessoal desimpedida. A liberdade verdadeira e eterna é alcançada quando se vive na mesma sintonia e no mesmo ritmo que a Lei Mística, recitando Nam-myoho-renge-kyo e compartilhando-a com outros.

Esse é o modo de sermos pessoas conscientes e livres para construir uma condição de vida ampla, expansiva e ilimitada, sem restrições, e conduzir uma existência na qual possamos saborear a maior felicidade, desfrutando ao máximo tudo o que existe. É por isso que, independentemente do que aconteça, jamais devemos abandonar a prática.

A revolução religiosa que a Soka Gakkai está conduzindo é uma luta para libertar a humanidade, para libertar todas as pessoas, de modo que possam desfrutar eterna liberdade interior.

Esse tipo de liberdade interior não se consegue sentando-se e esperando por ela; é algo que devemos conquistar com firmes esforços. Para isso, peço que cada um de vocês se esforce para vencer a si mesmo.

O compromisso de autodomínio é o alicerce a partir do qual tudo se seguirá de acordo com o princípio budista da “consistência do início ao fim”, permitindo que criem uma vida de verdadeira felicidade e liberdade.

Qual a importância da nossa condição de vida interior?

No curso da vida, nós nos deparamos com todos os tipos de problemas. Com certeza, também haverá ocasiões em que estaremos diante de circunstâncias além de nosso controle. Mas por que, numa mesma situação, uma pessoa avança com entusiasmo enquanto outra se entristece e lamenta? É porque a felicidade é uma condição interna, algo que sentimos em nosso coração.

Se usufruirmos uma existência com alegria e com satisfação em viver, seremos vencedores. Por isso, é tão importante transformar nosso coração e mente. Essa é a essência do Budismo de Nichiren Daishonin.

A aparência não importa. Há muitas pessoas cujas circunstâncias parecem invejáveis, mas na verdade são bastante infelizes. Aqueles que possuem um coração forte, sábio, resiliente e generoso se mantêm otimistas e positivos não importando o que aconteça. (…)

Felicidade não é apenas uma palavra; tampouco se resume a objetos ou é determinada por riqueza, posição social e prestígio.

A chave de tudo é, em primeiro lugar, recitar Nam-myoho-renge-kyo. Assim, experimentamos uma explosão de energia vital.

Sentir alegria nas profundezas de nossa vida, independentemente do que ocorra, deleitar-se com cada instante do dia ao conversar com nossos amigos e orar tanto quanto desejarmos são exemplos de genuína felicidade.

O movimento promovido pela nossa Soka Gakkai ensina o modo fundamental para manifestar uma felicidade assim.

De que forma nossa felicidade se conecta com a felicidade das outras pessoas?

Nichiren Daishonin declara: “‘Alegria’ significa que a pessoa, junto com outras, experimenta a alegria. (…) Tanto a pessoa como as outras se alegrarão por possuírem sabedoria e compaixão”.3 Nós e também as outras pessoas somos importantes. Desejar somente a própria felicidade é egoísmo. Desejar apenas a felicidade dos outros é hipocrisia. A verdadeira alegria existe quando nós junto com as outras pessoas nos tornamos felizes.

O segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, afirmou: “Tornar-se feliz sozinho não é difícil, é relativamente simples. Mas a essência do Budismo de Nichiren Daishonin se resume a ajudar as outras pessoas a se tornar felizes também”.4

Em sua declaração, Daishonin diz que a verdadeira felicidade é possuir sabedoria e compaixão — isto é, o estado de buda. Se alguém tem sabedoria, mas lhe falta compaixão, sua vida será obstruída e limitada; tal sabedoria não é genuína. Possuir compaixão, mas carecer de sabedoria, ou agir de forma insensata, significa que é incapaz de ajudar alguém, incluindo a si próprio. Essa compaixão não pode ser considerada genuína. (…)

O presidente Josei Toda mantinha a crença de que “felicidade individual e prosperidade social devem andar lado a lado”. A felicidade individual citada aqui não é egoísta; ao contrário, significa cultivar a verdadeira humanidade — desenvolver um eu que possui sabedoria e compaixão e ajuda os outros a fazer o mesmo.

Fonte:

Cf. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 1: A Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024.

Notas:

1. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. II, p. 267, 2017.

2. The Record of the Orally Transmitted Teachings [Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, p. 211-209.

3. Ibidem, p. 146.

4. TODA, Josei. Toda Josei Zenshu [Obras Completas de Josei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha, v. 4, p. 378, 1984. Tradução do japonês.

FONTE: EDITORA BRASIL SEIKYO/SOKA GAKKAI E JORNAL SEIKYO SHIMBUN=EBS/SG/SS