Fé, o caminho para ser feliz

ROTANEWS176 24/01/2026  11:0

ENCONTRO COM O MESTRE

Por Dr. Daisaku Ikeda

O presidente Ikeda apresenta neste discurso seis pontos para alcançar a felicidade e salienta que todos eles estão incluídos na prática do Budismo Nichiren.

Reprodução/Foto-RN176 Presidente Ikeda e sua esposa, Kaneko, incentivam membros da Soka Gakkai no Centro Cultural da Paz de Miyazaki (Japão, 10 fev. 1991). ). Ele foi; pacifista, filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista da SGI atualmente era o Mestre e Presidente da Soka Gakkai Internacional — Foto: Seikyo Shimbun

Em seus escritos, Nichiren Daishonin afirma: “Não passem a vida em vão para depois se arrependerem durante os próximos dez mil anos”.1

Como devemos usufruir nossa existência? Qual é a mais valiosa e mais digna maneira de viver? Um conhecido poema diz: A vida de uma flor é curta. / Os sofrimentos são muitos.2 Esses versos significam que as flores num instante desabrocham e, igualmente, num instante, as pétalas caem e se espalham; por fim, só o que permanece por um longo tempo é o sofrimento. Em alguns momentos, a vida realmente parece ser assim.

Um filósofo certa vez comentou que talvez só fosse possível determinar a felicidade ou a infelicidade na vida contabilizando, ao término de uma existência, as alegrias e os dissabores para saber se o resultado foi positivo ou negativo.

Há muitas pessoas que, apesar de terem alcançado uma posição social de destaque na sociedade ou grande riqueza material, nunca se tornam felizes. Outras podem desfrutar um casamento maravilhoso ou relações de profundo afeto, mas um dia a morte vai separá-las daqueles que amam. A separação de quem se ama é um dos sofrimentos inevitáveis inerentes à condição humana. Há muitos que, apesar de terem conquistado fama e popularidade, morrem depois de agonizar em longas e terríveis enfermidades. E outros nascem com uma beleza excepcional que, em alguns casos, e embora seja uma aparente vantagem, termina sendo a causa de sua desventura.

Onde, então, se encontra a felicidade? Como podemos ser felizes? Essas são questões fundamentais da vida e, sem dúvida, os seres humanos estão destinados a perseguirem-nas eternamente. Os ensinamentos do Budismo Nichiren e a fé na Lei Mística fornecem respostas essenciais para essas questões.

Com toda a certeza, a felicidade existe quando desenvolvemos um sólido senso de identidade. A felicidade baseada em fatores externos — ter uma casa bonita ou boa reputação — é felicidade relativa. Não é a sólida e imutável felicidade absoluta. Alguns podem passar a impressão de estar em meio às circunstâncias mais afortunadas, porém, se vivem se sentindo vazios e sofrendo, não podem ser considerados felizes.

Alguns vivem em casas esplêndidas, mas não fazem nada além de brigar dentro delas. Há quem trabalhe para empresas famosas e desfrute prestígio que muitos inve-jam, entretanto, sempre é reprovado por seus superiores, sente-se exausto devido a uma enorme carga de trabalho, sem sentir alegria nem realização na vida.

A felicidade não está na aparência nem na vaidade. Ao contrário, é uma questão do que se sente; é uma profunda ressonância vital. Portanto, eu diria que a primeira condição para a felicidade é o senso de realização.

Ser feliz é viver todos os dias com sensação exultante, propósito claro, satisfação da tarefa cumprida e profundo senso de realização. As pessoas que cultivam essa satisfação, mesmo que sejam extremamente ocupadas, são muito mais felizes que aquelas que têm tempo livre, mas se sentem vazias por dentro.

Como praticantes do Budismo Nichiren, nós nos levantamos pela manhã e recitamos gongyo. Alguns talvez com relutância! Contudo, fazer o gongyo é algo verdadeiramente grandioso e nobre. O gongyo é uma solene cerimônia na qual, por assim dizer, contemplamos o universo; é um diálogo com o universo.

Fazer gongyo e recitar Nam-myoho-renge-kyo diante do Gohonzon representam o amanhecer, o começo de um novo dia em nossa vida; é o sol nascendo; é um profun-do senso de contentamento nas profundezas do nosso ser que nada pode superar. Mesmo que tivéssemos somente isso, sinceramente, seríamos pessoas afortunadas.

Há quem aparente ser feliz, mas começa o dia melancólico e depressivo. Um marido pode ser repreendido por sua esposa pela manhã e começar seu dia de mau humor, perguntando-se: “Por que me casei com uma pessoa assim?”. Ele não conseguirá saborear nem a felicidade nem o contentamento. Só de observarmos nossas manhãs, fica claro que nós, na SGI, estamos conduzindo uma existência de profundo valor e satisfação.

Além disso, cada um de vocês está se empenhando ao máximo em seu trabalho e em seu campo de responsabilidade, visando vencer em todos os setores da vida. Ao mesmo tempo, dedicam seu escasso tempo sem poupar esforços em prol do budismo, do kosen-rufu, da felicidade dos demais e do bem-estar da sociedade. Nesta época repleta de perversidade que o budismo chama de Últimos Dias da Lei, vocês estão se empenhando com energia e constância em meio a muitas dificuldades e obstáculos, recitando Nam-myoho-renge-kyo pela felicidade das outras pessoas, viajando longas distâncias para encontrar e conversar com elas, demonstrando-lhes uma calorosa preocupação e compreensão. Vocês são legítimos bodisatvas; não há vida mais nobre nem vida baseada numa filosofia mais sublime. Cada um de vocês está pondo em ação essa insuperável filosofia e difundindo sua mensagem amplamente. Possuir uma filosofia de tão profundo valor é a maior boa sorte. Assim, a segunda condição para a felicidade é possuir uma profunda filosofia.

A terceira condição é ter convicção. Vivemos numa época em que as pessoas não conseguem distinguir claramente o certo do errado, o bem do mal. Essa é uma tendência global. Se continuar dessa forma, a humanidade estará destinada ao caos e à decadência moral. Em meio a tudo isso, vocês estão mantendo e praticando sinceramente o Budismo de Nichiren Daishonin, um ensinamento do mais elevado bem.

Em Abertura dos Olhos, Nichiren Daishonin escreveu: “Não importa que os deuses me abandonem. Não importa que eu tenha de enfrentar todas as perseguições. Ainda assim, darei a vida em prol da Lei”.3

Nesse mesmo escrito, ele instrui seus adeptos a não ser abalados pelas tentações ou ameaças, mesmo que cheguem a extremos — tal como lhe “oferecer o trono do Japão” ou “decapitar seus pais”.4

O importante é manter-se firme às suas convicções, aconteça o que acontecer, tal como Daishonin ensina. Aqueles que possuem essa convicção inabalável poderão ser felizes. Cada um de vocês já é alguém assim.

A quarta condição é viver com alegria e entusiasmo. Aqueles que estão sempre se queixando, descontentes, transformam não só a si próprios, mas aqueles ao redor, em miseráveis e infelizes. Em contraste, quem vive positivamente e repleto de entusiasmo, sempre com ótima disposição e bom humor, a ponto de animar e iluminar o coração de todos que encontra, não só é feliz, como também inspira e dá esperança aos outros.

Aqueles que sempre se apresentam com um semblante triste e pesado, que não se alegram nem se maravilham com nada, levam uma existência sombria e apagada.

Por outro lado, aqueles que possuem ânimo encaram mesmo uma repreensão da esposa como música aos seus ouvidos ou recebem o boletim com notas baixas do filho como sinal de que há grande potencial para desenvolvimento futuro! Ver os eventos e as situações dessa ótica positiva é importante. A força, a sabedoria e a alegria que acompanham essas atitudes conduzem à felicidade.

Reprodução/Foto-RN176 Participantes do encontro de ano-novo realizado no Auditório da Paz, do Centro Cultural Dr. Daisaku Ikeda (São Paulo, SP, 1o jan. 2026)

Entretanto, considerarmos tudo sob uma luz positiva ou com boa vontade não significa sermos tolos ou ingênuos, permitindo que os outros tirem vantagem da nossa boa natureza. Pelo contrário, significa agirmos com sabedoria e perspicácia que nos permitam conduzir tudo para uma direção positiva justamente porque podemos enxergar seu melhor aspecto, sem jamais desviarmos os olhos da realidade.

A prática da fé e os ensinamentos budistas nos capacitam a desenvolver esse tipo de personalidade. Construir uma personalidade assim é um tesouro muito mais precioso que qualquer bem material.

A quinta condição para a felicidade é a coragem. As pessoas corajosas superam tudo. Em contraste, os covardes, por carecerem de coragem, perdem a oportunidade de saborear as verdadeiras e profundas alegrias da vida. Isso é lamentável.

A sexta condição para a felicidade é a tolerância. Aqueles que são tolerantes e de mente aberta fazem os demais se sentirem à vontade e tranquilos. Pessoas intolerantes e de mente estreita, que criticam as outras pelas pequenas coisas ou que causam grande tumulto toda vez que surgem problemas, apenas cansam as demais e as intimidam. As pessoas que têm função de liderança devem ser calorosas e tolerantes, de modo que todos se sintam à vontade e tranqui-los. Aqueles que possuem um coração tão amplo como o oceano são felizes e fazem felizes todos ao redor.

As seis condições que acabei de mencionar estão essencialmente contidas numa única palavra: “fé”. Uma vida baseada na fé é uma vida de insuperável felicidade.

Nichiren Daishonin declarou: “Nam-myoho-renge-kyo é a maior das alegrias”.5 Desejo que todos saboreiem a verdade dessas palavras profundamente em sua vida e, pondo-as em prática, demostrem maravilhosas comprovações.

Extraído de um discurso proferido durante uma reunião geral da SGI-Estados Unidos em 23 de junho de 1996.

Fotos: Seikyo Shimbun | BS

Notas:

1. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 650, 2020.

2. Da autora japonesa Fumiko Hayashi (1903–1951).

3. Coletânea dos Escritos de Nichiren Dai-shonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 293, 2020.

4. Ibidem.

5. The Record of the Orally Transmitted Teachings [Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, p. 212.

FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS