A psicologia afirma que as pessoas que cresceram nas décadas de 60 e 70 desenvolveram oito qualidades mentais que são raras hoje em dia

ROTANEWS176 29/01/2026 13:38

Por Livia D’Ambrosio

Reprodução/Foto176 A psicologia afirma que as pessoas que cresceram nas décadas de 60 e 70 desenvolveram oito qualidades mentais que são raras hoje em dia© @Shutterstock

Muitos olham para esse período com certa nostalgia: ruas sem smartphones, comunidades mais unidas e uma rotina mais simples. Mas, do ponto de vista da psicologia, esse contexto histórico não marcou apenas uma fase cultural, ele também influenciou a forma como essas pessoas pensam, sentem e lidam com problemas. 

O que chama a atenção de psicólogos e sociólogos hoje não é a idealização do passado, e sim a constatação de que algumas habilidades mentais desenvolvidas naquela época se tornaram menos comuns nas gerações mais jovens. Grande parte disso pode ser explicada pelo estilo de vida vigente: mais interação face a face, menos estímulos constantes e responsabilidades assumidas desde cedo. Esse conjunto de fatores deixou marcas importantes em habilidades cognitivas e emocionais, algo que aparece em estudos sobre diferenças geracionais relacionadas ao enfrentamento de dificuldades, ao autocontrole e à capacidade de atenção.

Atenção profunda e concentração prolongada

Antes da revolução digital, manter o foco em uma única tarefa era algo comum. Ler um livro inteiro, dedicar horas a um hobby ou concluir uma atividade sem interrupções fazia parte do dia a dia. Hoje, psicólogos alertam que a estimulação digital constante tem alterado a forma como o cérebro funciona. A atenção sustentada vem sendo substituída por períodos curtos e fragmentados de foco.

Em comparação com as gerações que já nasceram conectadas, adultos mais velhos tendem a usar estratégias de atenção mais eficientes para evitar distrações internas, mesmo quando a mente divaga. Isso acontece porque eles preservam uma espécie de “treino cognitivo” desenvolvido ao longo da vida. Conseguem se concentrar, concluir o que começam e permanecer presentes, além de exercitar a memória de forma contínua para mantê-la ativa com o passar dos anos.

Contentamento com o que se tem

Vivemos hoje em uma cultura de insatisfação constante. Influenciados pelas redes sociais e pelo estilo de vida atual, estamos sempre desejando algo novo. Quando conquistamos um objetivo, logo surge outro. Isso vale tanto para bens materiais quanto para relacionamentos — uma lógica bem diferente daquela vivida nas décadas de 1960 e 1970.

Naquele período, as pessoas tinham menos posses e expectativas mais simples. Havia o desejo de progresso, especialmente em um contexto de crescimento econômico e expansão da classe média. Ainda assim, predominava uma postura de valorização do que já se tinha, muito influenciada pela memória das dificuldades do pós-guerra.

Não era necessário ter sempre a última novidade para se sentir satisfeito. Não existia a pressão por acompanhar lançamentos ou tendências ditadas por influenciadores. A psicologia atual associa esse comportamento a níveis mais elevados de satisfação com a vida, enquanto tradições como o budismo se referem a esse estado como desapego.

Tolerância ao desconforto sem pânico

Quem cresceu nessas décadas aprendeu cedo que o desconforto não desaparece de forma imediata. Essa vivência frequente de frustrações contribuiu para o desenvolvimento do que a psicologia chama de tolerância ao desconforto: a capacidade de lidar com emoções difíceis sem entrar em colapso.

Pesquisas sobre estratégias de enfrentamento entre gerações mostram que adultos mais velhos tendem a apresentar menos ansiedade diante de situações cotidianas quando comparados à Geração Z e aos millennials, o que sugere diferenças importantes nos mecanismos de regulação emocional.

A ideia de que o resultado depende do esforço

Na psicologia, o conceito de locus de controle se refere ao quanto uma pessoa acredita ter influência sobre os acontecimentos da própria vida. As gerações que chegaram à adolescência antes da era da hiperconectividade cresceram com a noção de que o esforço individual era determinante para alcançar resultados.

Estudos sobre características geracionais indicam que essa percepção de controle interno varia ao longo do tempo e influencia diretamente a forma como desafios pessoais e profissionais são enfrentados.

A recompensa não era imediata

Vivemos hoje na era da gratificação instantânea. Queremos tudo rapidamente, da comida entregue em casa às compras feitas pela internet. Quase tudo está a poucos cliques de distância. Mas nem sempre foi assim.

Antes desse cenário, as recompensas exigiam planejamento, espera e dedicação. Pessoas que cresceram sem acesso imediato a compras online ou notificações constantes acabaram desenvolvendo a paciência de forma natural, aprendendo a lidar melhor com a frustração e a expectativa.

Capacidade de lidar com conflitos pessoalmente

Atualmente, é comum ver relacionamentos terminarem por mensagens ou até demissões acontecerem por e-mail. Antes da popularização das mensagens instantâneas e das redes sociais, os conflitos eram resolvidos cara a cara.

Isso exigia atenção à linguagem corporal, ao tom de voz e à construção de soluções em tempo real. Com a predominância das telas, muitas dessas habilidades foram sendo substituídas por interações mais impessoais, algo que a literatura psicológica aponta como um fator capaz de afetar a qualidade das relações e aumentar a insegurança social.

Separar decisões práticas das emoções

Sempre se soube que tomar decisões no calor da emoção pode trazer consequências indesejadas. Nas décadas de 1960 e 1970, a regulação emocional fazia parte da vida cotidiana, mesmo que não fosse chamada assim.

As emoções sempre existiram, mas não havia a exposição constante à sobrecarga de informações típica das redes sociais e dos meios de comunicação atuais. Hoje, tudo é amplificado, o que pode dificultar decisões mais racionais e equilibradas.

Resiliência construída na tentativa e erro

Hoje, recorremos facilmente ao Google ou ao ChatGPT para resolver qualquer problema. Se isso não basta, há inúmeros profissionais acessíveis com poucos cliques. Nas décadas de 1960 e 1970, a realidade era bem diferente.

As pessoas precisavam lidar com desafios usando recursos limitados, desde consertar um eletrodoméstico até se orientar com um mapa de papel. Essa experiência fortalecia a confiança na própria capacidade de resolver problemas sem ajuda imediata.

Essas vivências ajudaram a desenvolver o que os psicólogos chamam de resiliência baseada na experiência: a segurança que surge ao superar dificuldades por conta própria. Trata-se de uma força mental construída aos poucos, mais difícil de ser desenvolvida em um contexto em que as soluções estão sempre prontas e acessíveis

FONTE: MINHA VIDA