Estudo liga insônia a casos de câncer em pessoas com menos de 50 anos

ROTANEWS176 05/06/2026 10:00

Por Thyago Murad

Pesquisa associa insônia e maior risco de alguns tipos de câncer antes dos 50 anos.

Reprodução/Foto-RN176 A insônia é apontada como perigosa para a saúde. – Reprodução / Freepik

Dormir mal pode ter impactos que vão muito além do cansaço, da irritação e da dificuldade de concentração, segundo pesquisa. Um novo estudo apresentado durante o congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, o ASCO 2026, chamou a atenção da comunidade científica ao identificar uma associação entre a insônia e um maior risco de desenvolvimento de alguns tipos de câncer em pessoas com menos de 50 anos.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Jefferson Health New Jersey e do MD Anderson Cancer Center e analisou dados de milhões de pacientes nos Estados Unidos. Os resultados sugerem que indivíduos diagnosticados com insônia apresentaram taxas mais elevadas de determinados cânceres de início precoce quando comparados à população sem o distúrbio do sono.

Embora os pesquisadores reforcem que os resultados não comprovam uma relação direta de causa e efeito, a descoberta amplia o debate sobre o papel do sono na manutenção da saúde e na prevenção de doenças crônicas.

O que mostrou a pesquisa

O estudo foi apresentado na ASCO 2026 e publicado como resumo científico no Journal of Clinical Oncology. A pesquisa utilizou dados da base TriNetX, uma rede que reúne prontuários eletrônicos de mais de 70 organizações de saúde dos Estados Unidos.

Os cientistas compararam adultos entre 18 e 50 anos diagnosticados com insônia primária com indivíduos da mesma faixa etária que não apresentavam o distúrbio. Ao todo, foram analisados mais de 18 milhões de registros médicos, incluindo mais de 413 mil pessoas com diagnóstico de insônia.

Segundo os resultados, os participantes com insônia apresentaram maior probabilidade de desenvolver alguns tipos de câncer nos cinco anos seguintes ao diagnóstico do transtorno do sono.

Os riscos observados foram especialmente relevantes para:

  • Câncer de mama de início precoce;
  • Câncer de útero;
  • Câncer de ovário.

No caso do câncer de mama, a incidência foi mais de três vezes superior entre pacientes com insônia quando comparada ao grupo controle. Já os riscos para câncer de útero e ovário também apresentaram aumentos estatisticamente significativos.

Os autores do trabalho foram os pesquisadores Vineet Polineni, Danielle Claire Thor, Mahija Cheekati e Ben Brik, vinculados à Jefferson Health New Jersey e ao MD Anderson Cancer Center.

Por que o sono pode influenciar o risco de câncer?

Embora essa ligação  ainda esteja sendo investigada, os cientistas acreditam que o sono exerce papel fundamental em diversos processos biológicos relacionados à proteção do organismo. Durante o descanso, ocorrem regulações hormonais, recuperação celular, fortalecimento do sistema imunológico e controle de processos inflamatórios.

Quando a qualidade do sono é comprometida por períodos prolongados, algumas dessas funções podem ser afetadas.

Segundo os pesquisadores, a insônia está associada a alterações do ritmo circadiano, desregulação imunológica e mudanças na sinalização hormonal, fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de doenças ao longo do tempo.

Esses mecanismos são considerados hipóteses biológicas plausíveis para explicar a associação observada.

Casos de câncer em jovens têm aumentado

O estudo surge em um contexto que já preocupa especialistas em saúde pública, que é o aumento do número de casos de câncer em pessoas mais jovens. Nas últimas décadas, diversos países registraram aumento na incidência de câncer em adultos jovens. 

Por isso, pesquisadores tentam entender quais fatores ambientais, comportamentais e metabólicos podem estar contribuindo para esse crescimento.

Segundo análises citadas pelos autores, os casos de câncer de início precoce vêm aumentando globalmente, o que levou cientistas a investigar potenciais fatores de risco modificáveis, incluindo hábitos relacionados ao sono.

A hipótese é que fatores do estilo de vida moderno, como jornadas extensas de trabalho, exposição excessiva a telas, estresse crônico e privação de sono, possam estar entre os elementos que merecem investigação mais aprofundada.

A pesquisa prova que a insônia causa câncer?

Não, embora esse seja um dos pontos mais importantes destacados pelos próprios pesquisadores.

O estudo identificou uma associação estatística entre insônia e maior incidência de determinados cânceres, mas não conseguiu demonstrar que a falta de sono seja a causa direta do problema.

Pesquisas observacionais conseguem mostrar que dois fenômenos aparecem juntos com frequência, mas não necessariamente estabelecem uma relação causal. Existem diversas explicações possíveis para os resultados encontrados.

Uma delas é que o sono ruim realmente participe do processo biológico que favorece o surgimento de tumores.

Outra hipótese é que pessoas com insônia apresentem outros fatores associados ao risco de câncer, como sedentarismo, alimentação inadequada, obesidade, tabagismo ou maior exposição ao estresse. Também existe a possibilidade de que alterações biológicas muito precoces relacionadas ao câncer possam interferir no padrão de sono antes mesmo do diagnóstico da doença.

Por isso, os autores defendem que novas pesquisas sejam realizadas para compreender melhor essa relação.

Como melhorar a qualidade do sono

Embora a pesquisa não permita afirmar que tratar a insônia reduz o risco de câncer, especialistas concordam que dormir bem traz benefícios importantes para a saúde física e mental. Algumas medidas costumam ser recomendadas para melhorar a qualidade do sono:

  • Manter horários regulares: Dormir e acordar em horários semelhantes ajuda a regular o relógio biológico.
  • Evitar telas antes de dormir: A luz emitida por celulares, computadores e televisões pode interferir na produção de melatonina.
  • Reduzir cafeína à noite: Café, energéticos e alguns refrigerantes podem dificultar o início do sono.
  • Criar um ambiente adequado: Quartos escuros, silenciosos e com temperatura confortável favorecem o descanso.
  • Procurar ajuda médica quando necessário: Quando a insônia persiste por semanas ou meses, a avaliação profissional é fundamental para identificar possíveis causas e definir o tratamento adequado.

FONTES: SELEÇÕES E RN176