Viver com alegria e vitalidade 

ROTANEWS176 13/06/2026  09:35

ENCONTRO COM O MESTRE

Por Dr. Daisaku Ikeda

Evidenciar o potencial inerente ao estado de buda em nossas ações diárias por meio da prática budista é a chave para a verdadeira felicidade

Reprodução/Foto-RN176 Em encontro promovido pela SGI-Estados Unidos, Ikeda sensei oferece canções ao piano para os participantes (Los Angeles, 18 out. 1980). Dr. Daisaku Ikeda Ele foi  um filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista da SGI atualmente o Mestre e Presidente da Soka Gakkai Internacional Foto: Seikyo Press

Estabelecer o estado de buda como nossa tendência básica de vida

Nesta passagem, o presidente Ikeda explica que, no Budismo Nichiren, o estado de buda não é algo que esperamos alcançar após a morte, mas sim uma condição de vida aberta e manifesta que podemos atingir na própria vida e da exata maneira que somos.

DR. DAISAKU IKEDA

Um modo de ver esse princípio de que cada pessoa representa uma entidade da possessão mútua dos dez mundos1 é considerá-lo a partir da perspectiva de nossa tendência básica de vida. Todos possuímos os dez mundos; apesar disso, nossa vida tende a manifestar um dos estados de vida com mais frequência que os demais. Por exemplo, algumas pessoas se inclinam ao estado de inferno regularmente, e outras, ao estado de bodisatva. Essa tendência básica poderia ser chamada de “recorrência de hábito” da vida de uma pessoa, uma predisposição formada por meio das causas cármicas que ela acumula desde o passado.

Assim como uma mola distendida retorna à sua forma original, nós retornamos à nossa tendência básica. No entanto, ainda que o estado de inferno seja a tendência de vida de uma pessoa, isso não significa que ela permanecerá nessa condição o tempo todo; seu estado de vida muda de um para o outro, algumas vezes manifestando o de tranquilidade; em outras, o de ira, e assim por diante. De maneira semelhante, alguém que se inclina ao estado de ira — que sempre se impulsiona pelo desejo de ser melhor que os demais — também evidenciará estados mais elevados como o de tranquilidade ou o de bodisatva. Entretanto, mesmo que por um momento exteriorize o estado de bodisatva, essa pessoa rapidamente retornará à sua tendência básica de ira.

A mudança de nossa tendência básica de vida se dá por meio da revolução humana e da transformação de nosso estado de vida na essência. Em outras palavras, significa mudar nossa atitude mental, nossa determinação, no âmago da nossa vida. O tipo de vida que temos é determinado por nossa tendência básica de vida. Por exemplo, aqueles que se inclinam ao estado de fome são como passageiros num navio chamado Fome. Enquanto navegam no estado de fome, em alguns momentos, podem experimentar alegria e, em outros, sofrimento. Ainda que haja variações, o navio avançará seguindo a rota traçada. Em consequência, quem estiver a bordo verá tudo tingido pelas tonalidades da fome. E, mesmo após a morte, a vida dessas pessoas entrará em fusão com o estado de fome inerente ao Universo.

“Atingir o estado de buda” significa estabelecer o estado de buda como nossa tendência básica de vida. Apesar disso, ainda que o estado de buda se consolide como nosso estado fundamental, as preocupações e os sofrimentos não desaparecem da nossa vida, pois continuamos com os outros nove estados. Contudo, a esperança se torna o alicerce da nossa vida, e passamos a manifestar cada vez mais uma condição de alegria e de segurança.

Meu mestre, Josei Toda, certa vez explicou:

Mesmo ficando doentes, devemos manter a atitude de que “Está tudo bem. Sei que se orar ao Gohonzon irei me recuperar”. O fato de manifestarmos o estado de buda já não confirma que somos capazes de viver desfrutando uma completa paz espiritual? Porém, pela razão de o estado de buda conter os outros nove estados, em algumas ocasiões ainda poderemos ficar irados ou teremos de enfrentar problemas. O fato de desfrutarmos plena paz espiritual não significa que temos de renunciar à ira ou a sentimentos semelhantes. Uma preocupação continua sendo preocupação. Contudo, em nosso interior, sentimos um profundo senso de segurança. A pessoa que manifesta essa condição de vida é chamada de buda. Se pudermos considerar que só o fato de viver é uma alegria absoluta, isto já não é ser um buda? Não seria esse o significado de alcançar o mesmo estado de vida de Nichiren Daishonin? Até mesmo diante da possibilidade de ser decapitado, Daishonin permaneceu sereno, inabalável. Em uma situação semelhante, qualquer um de nós entraria em pânico! E quando foi exilado na Ilha de Sado, Daishonin continuou instruindo seus discípulos sobre várias questões e compilou escritos tais como Abertura dos Olhos e O Objeto de Devoção para Observar a Mente. Sem uma paz espiritual inabalável, ele jamais teria sido capaz de redigir esses grandiosos tratados [sob circunstâncias tão terríveis].2

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Nossa prática diária do gongyo — recitar partes do Sutra do Lótus e o Nam-myoho-renge-kyo — é uma cerimônia solene na qual nossa vida entra em fusão com a vida do Buda. Quando praticamos firmemente o gongyo e a recitação do Nam-myoho-renge-kyo, estabelecemos o estado de buda em nossa vida de forma tão sólida e inabalável como a terra. Nesse alicerce, nesse inquebrantável palco, podemos representar, a cada momento e com liberdade, o drama dos nove mundos.

Além disso, nosso movimento pelo kosen-rufu é o desafio de tornar o estado de buda a tendência básica da sociedade. A chave para isso se encontra em inspirar mais e mais pessoas a compartilhar nossas nobres aspirações.

Quando fundamentamos nossa fé no Budismo de Nichiren Daishonin, nenhum esforço é em vão. E quando tornamos o estado de buda nossa tendência básica de vida, avançamos na direção de um futuro de esperança, enquanto criamos valor positivo a partir das nossas atividades diárias nos nove mundos, do passado e do presente. Na verdade, cada adversidade e desafio que enfrentamos nos nove mundos torna-se o alimento que fortalece o estado de buda em nossa vida.

À luz do princípio que expõe que “desejos mundanos são iluminação”, todos os sofrimentos (desejos mundanos ou impulsos ilusórios dos nove mundos) se convertem em “lenha” ou combustível para a felicidade (iluminação, ou estado de buda). Isso se assemelha ao funcionamento do nosso organismo ao digerir alimento, convertendo-o em energia.

Um buda que perdeu a ligação com os sofrimentos reais dos nove mundos não é um buda verdadeiro, ou seja, aquele que incorpora a possessão mútua dos dez mundos. Essa é a mensagem essencial do capítulo “A Extensão da Vida d’Aquele que Assim Chega” do Sutra do Lótus.

Podemos descrever o estado de buda também como a disposição de enfrentar até as agonias do inferno. Esse é o estado de inferno contido no estado de buda. É caracterizado pela empatia e pela atitude de assumir voluntariamente os sofrimentos em prol do bem-estar e da felicidade das outras pessoas, que nasce do senso de responsabilidade e compaixão. A postura de confrontar problemas e sofrimentos em prol dos demais fortalece o estado de buda em nossa vida.

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A prática budista nos permite viver fiéis a nós mesmos graças ao princípio da “possessão mútua dos dez mundos”. Os ensinamentos budistas que carecem desse princípio rejeitam os nove mundos, procurando alcançar o estado de buda pela libertação desses estados inferiores. Mas, na verdade, tal método deprecia nossa humanidade. É uma vida de proibições e impedimentos, de constante culpa e autonegação; e, por fim, nos leva a “reduzir o corpo a cinzas e a aniquilar a consciência”.É eviden­te que a autorreflexão e o autocontrole são importantes, mas, se levados ao extremo, podem nos transformar numa pessoa rígida, de mente estreita, que mal sabe o que significa estar vivo.

Esse é o caso quando dizem que o remédio pode ser pior que a enfermidade. Um enfoque melhor é, com frequência, ignorar as pequenas falhas dos outros e, em vez disso, inspirar-lhes esperança e um senso de propósito, para que possam avançar com atitude positiva. As pessoas que vivem com essa radiante convicção em si mesmas podem ir transformando suas falhas de forma natural. Por exemplo, o defeito da impaciência pode se transformar na virtude do dinamismo.

Isso se aplica à nossa própria vida e ao desenvolvimento dos demais. A chave é ser fiel a si próprio sem tentar impressionar os outros ou ser quem não somos. Somos todos humanos; às vezes, rimos; outras, choramos; ficamos zangados e ficamos confusos. Como pessoas comuns, tal como somos, quando nos comprometemos com o kosen-rufu no nível mais profundo do nosso ser, o estado de buda se torna nossa tendência básica de vida.

Quando ficamos irados, que nos permitamos essa reação; quando há motivo para nos preocupar, que nos preocupemos; quando algo for engraçado, que possamos rir; e quando algo for agradável, que o desfrutemos. Conforme Daishonin diz, “Sofra o que tiver de sofrer, desfrute o que existe para ser desfrutado”.Ao vivermos assim todos os dias, com alegria e vitalidade, avançamos com dinamismo na direção do objetivo da felicidade absoluta para nós e para os demais.

Extraído de A Sabedoria do Sutra do Lótus, v. 4, publicado em japonês em dezembro de 1998.

Fonte:

IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felici­dade e a Paz — Parte 1: A Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 63-65.

Notas:

1. TODA, Josei. Toda Josei Zenshu [Obras Completas de Josei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha, v. 4, p. 257-259, 1989. Orientação proferida por ocasião da Reunião Geral Conjunta de Distritos da Região Oeste do Japão, em janeiro de 1955.

2. Ibidem, v. 2, p. 446-447, 1982.

3. Reduzir o corpo a cinzas e aniquilar a consciên­cia: Referência à doutrina afirmada por algumas escolas budistas de que se pode alcançar o nirvana — escapar dos sofrimentos do ciclo interminável de nascimento e morte — apenas extinguindo o corpo e a mente, que são considerados as fontes dos desejos mundanos, das ilusões e dos sofrimentos.

4. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 713, 2017.

FONTE: JORNAL SEIKYO SHIMBUN E JORNAL BRASIL SEIKYO=JSS/JBS