A ciência acaba de descobrir um fato inusitado sobre os leões

ROTANEWS176 18/10/2026 08:44

Por Cinthya Dávila

Reprodução/Foto-RN176 A ciência acaba de descobrir um fato inusitado sobre os leões

O rugido do leão sempre foi entendido como um som único, associado à presença do animal no território e usado como referência para comunicação, defesa e organização social, mas uma nova pesquisa indica que aquilo que costumamos chamar de rugido reúne pelo menos dois tipos distintos de sons, organizados em uma sequência recorrente e com características acústicas próprias.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Exeter, com base em gravações de leões africanos em ambiente natural. Ao examinar sessões completas de vocalização, os cientistas observaram que os animais produzem um padrão relativamente consistente, no qual aparecem dois tipos principais de rugido. Um deles é o chamado rugido gutural, mais intenso e acusticamente complexo, enquanto o outro é um rugido intermediário, com estrutura mais regular e menor variação de frequência, que surge de forma recorrente após os sons mais intensos.

Dois rugidos, uma mesma sequência

A população de leões selvagens na África diminuiu de forma acentuada nas últimas décadas e hoje é estimada entre 22 mil e 25 mil indivíduos. A combinação entre perda e fragmentação de habitat, redução na disponibilidade de presas e conflitos com populações humanas levou o leão à categoria de vulnerável na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza, o que torna mais urgente o desenvolvimento de métodos precisos de monitoramento.

As sessões de rugidos desempenham um papel central na vida social dos leões, funcionando tanto para manter o contato entre membros de um mesmo bando quanto para sinalizar a ocupação de um território a grupos rivais. Dentro dessa sequência sonora, os rugidos guturais chamam a atenção por apresentarem padrões individuais, já que cada leão emite um som com características próprias, o que permite distinguir indivíduos apenas pela vocalização.

No entanto, durante uma mesma sessão, os sons se encadeiam e se misturam, o que dificulta a identificação precisa de cada tipo de rugido, mesmo para pesquisadores experientes. Essa sobreposição torna subjetiva a separação entre os diferentes sons e pode comprometer tentativas de contagem populacional baseadas apenas na escuta humana.

Classificação dos rugidos

Para reduzir esse grau de incerteza, a equipe recorreu a técnicas de inteligência artificial. Um sistema de aprendizado de máquina foi treinado para classificar automaticamente as vocalizações em três categorias rugidos guturais, rugidos intermediários e grunhidos. A partir de parâmetros acústicos simples, como duração do som e frequência máxima, o modelo conseguiu identificar cada tipo de vocalização com uma taxa de acerto superior a 95 por cento.

Quando aplicado à identificação individual dos leões, o método automatizado também apresentou desempenho superior ao da análise humana. A IA foi capaz de reconhecer indivíduos com maior precisão do que procedimentos baseados na seleção manual de sons, o que indica um caminho promissor para estimativas mais confiáveis da densidade populacional em áreas extensas, utilizando apenas registros acústicos.

Ainda não está claro que tipo de informação específica cada um desses rugidos transmite, embora exista a hipótese de que eles carreguem dados relacionados à identidade, idade ou organização social dos grupos. O que a pesquisa já demonstra de forma consistente é que o rugido do leão não é um som homogêneo nem simples e que compreender melhor essa complexidade pode ampliar as ferramentas disponíveis para a conservação da espécie.

Ao transformar um elemento familiar da paisagem sonora africana em um objeto de análise mais preciso, o estudo mostra que ouvir com mais atenção pode ser um passo decisivo para proteger um animal que, apesar de icônico, enfrenta riscos cada vez mais concretos de desaparecer de partes significativas de seu território histórico.

FONTE: REVISTA FÓRUM E RN176

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