“A doença não é um obstáculo”

ROTANEWS176 12/07/2025 11:25 

RELATO DIRETO DA REDAÇÃO DO JBS

As batalhas contra o câncer vencidas com base na prática do budismo fortalecem a jovem baiana Liege, que avança sem nada temer.

Reprodução/Foto-RN176  Liege Rodrigues Sales, na BSGI, atua como responsável pela Juventude Soka do Bloco Paralela, Distrito Imbuí, Sub. Bahia (CRE Leste)

Qual é o seu conceito de felicidade? Sou Liege Rodrigues Sales, baiana de Salvador, e digo que, para mim, é ser feliz com os obstáculos que se enfrenta. Em cada desafio ultrapassado, você se torna um dragão, cheio de força. Essa convicção não veio à toa, mas é a base da minha intensa luta contra a doença, vencendo cada etapa com o que aprendo no budismo.

“Baiano não nasce, estreia.” Essa é uma gíria de Salvador e abro meu relato com as cenas da minha chegada a este mundo. Minha mãe, Reginalda, tinha poucas chances de engravidar por conta de ovários policísticos e a idade passando dos quarenta anos. Ela, que conheceu o Budismo Nichiren em 1976, aprendeu que precisamos realizar o sonho. Há 33 anos, “estreei” já com esse DNA.

No próximo ano, completaremos nossos cinquenta anos de Soka Gakkai, com orgulho. Minha mãe é uma mulher “porreta”, a primeira da família a praticar o Nam-myoho-renge-kyo numa cidade na época carregada de preconceitos. Converteu a família toda ao budismo e até os vizinhos. Aprendeu a ser luz.

Doença como missão

Reprodução/Foto-RN176  Liege com a mãe, Reginalda

Desde muito nova, luto contra o carma da doença. Aos 14 anos, sonhava, tal qual uma adolescente comum, com a festa de 15 anos. Mas foi justamente nessa ocasião que minha mãe percebeu um pequeno edema do lado direito do meu pescoço. Agiu rápido, com daimoku em primeiro lugar. Após consultas, exames repetidos e biopsia marcada, um mês depois a realidade era que a festa dos meus 15 anos seria adiada.

O diagnóstico apontava linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer. O tratamento indicado e mais eficaz é a quimioterapia; porém, no meu caso, seria a radioterapia em razão dos exames que registravam frequência cardíaca elevada. Descobriu-se uma cardiopatia congênita. A síndrome Wolff Parkinson White é um tipo de arritmia e não apresenta nenhum sintoma. Contudo, havia risco de morte súbita. Então, entendemos a boa sorte da prática da fé, pois sobrevivi até aquele momento.

Nossa família se uniu cada vez mais na recitação do daimoku, apoiada pelo companheirismo da Soka Gakkai, algo surpreendente. Depois de 22 sessões de radioterapia, veio a primeira vitória sobre o câncer. E, em novembro de 2006, a festa de 15 anos aconteceu. Tudo no seu tempo.

Avançar com confiança

O ser humano, seja quem for, pode adoecer. Mas o importante é não ser derrotado pela doença. Enquanto houver um “coração com a força de não ser derrotado”, a pessoa poderá direcionar tudo para o lado positivo”.1

Reprodução/Foto-RN176 Foto ilustrativa da matéria

Essas são palavras de Ikeda sensei cujos incentivos foram ainda mais marcantes quando em 2008 tive recidiva do câncer. Voltou na região abdominal, nesse caso, com sintomas. Sentia muitas dores, o tumor já estava com quase 7 cm de diâmetro.

Novamente, hora de intensificar as orações. O tratamento desta vez foi com quimioterapia, realizado pelo SUS. Após oito meses e dezesseis sessões de quimio e a realização de muitos exames, vencemos outra vez. Nam-myoho-renge-kyo!

Persistir sempre

No final de 2009, passei no vestibular para fisioterapia. Ao mesmo tempo, com a perda da minha avó amada, chamada por todos de Dona Didi, começava nova batalha do carma. Durante o tratamento da quimioterapia, desenvolvi uma insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Palpitações, falta de ar, cansaço, era o que eu sentia. O que fazer? Orar e agir! Foram necessárias quatro cirurgias para restaurar o ritmo normal do coração, sendo a última realizada em 2017, com sucesso. A partir de então, faço acompanhamento médico regular todo ano.

Juventude que comprova

Em 2024, começou o movimento para a participação na Convenção Juventude Soka Esperança do Mundo, em São Paulo, SP. Financeiro e condições de saúde para ir com segurança foram causas para muito daimoku e incentivos dos amigos. Estava determinada e, assim, venci!

Estar no Ginásio do Ibirapuera foi mágico, pois me vi no palco em vários momentos. Desde menina, envolvi-me nos grupos horizontais da BSGI. Passei por quase todos e hoje sigo os passos da minha mãe quando jovem, atuando no grupo Cerejeira. Na convenção, fiz meu juramento ao Mestre de ser ainda mais feliz e comprovar a força do budismo por meio da transformação do meu carma de doença.

Reprodução/Foto-RN176 Foto de ilustração da matéria

Retornei para Salvador com novas amizades e com a certeza da vitória. Dois meses depois, inspirei uma amiga a receber o Gohonzon. Que alegria!

No budismo, aprendemos a ter esperança de futuro e a agir com o coração seguro da vitória. Portanto, continuo o tratamento cardíaco e meus índices estão bem próximos da normalidade. Falta pouco. O “dragão” está soltando fogo pelas ventas.

Agradeço a todos os que me acompanham nessa jornada. Viver com alegria e gratidão toma meus dias, porque “Aqueles que creem no Sutra do Lótus parecem viver no inverno, mas o inverno nunca falha em se tornar primavera”.2

Muito obrigada!

Liege Rodrigues Sales, 33 anos, Fisioterapeuta. Na BSGI, atua como responsável pela Juventude Soka do Bloco Paralela, Distrito Imbuí, Sub. Bahia (CRE Leste).

Notas:

1. IKEDA, Daisaku. Seja a Esperança. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022, p. 23.

2. Coletânea dos Escritos de Nichiren Dai-shonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 560, 2020.

FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO