ROTANEWS176 08/12/2022 11:25 ESPECIAL DIRETO DA REDAÇÃO DO JBS
Reflexões sobre o modo de vida budista de romper os grilhões do carma por meio da “transformação da fé em sabedoria”
Reprodução/Foto-RN176 Desenho de ilustração da matéria – Ilustração: GETTY IMAGES
Uma pessoa é sábia porque tem coragem ou é a coragem que a torna sábia? Há várias interpretações sobre este assunto, e uma concordância unânime: sabedoria vai além do universo do conhecimento. Viver bem e melhor é o desejo de todos, e algumas vezes a par do conhecimento adquirido e da experiência de vida, os reveses do carma ofuscam a confiança de futuro. Basta observar o grau de insegurança e o medo que o período pandêmico trouxe. Muitas pessoas perderam entes queridos, trabalho e saúde. A fraqueza se alojou no coração humano e algumas perderam o que há de mais essencial na vida: a confiança em si própria. Ter coragem para se levantar em meio ao caos torna-se verbo pouco conjugado ultimamente.
O Budismo Nichiren surgiu no século 13 como caminho para dotar pessoas comuns de força e coragem para vencer seus dramas da vida. Até então, a felicidade após a morte ou a resignação ao destino eram condicionantes da existência humana.
Para quem inicia a prática budista, o primeiro encantamento vem de ouvir que podemos ser felizes nesta existência, transformando dia a dia nossa condição de vida e rompendo os grilhões do carma. Uma filosofia libertadora, e que tem iluminado mentes e corações aflitos, especialmente nos últimos tempos.
No entendimento das emoções vivenciadas por boa parte da sociedade, o pacifista Daisaku Ikeda, que lidera a Soka Gakkai Internacional (SGI), enfatiza:
Há ocasiões em que perdemos um ente querido e, em outras, nós próprios adoecemos. Podem ocorrer também desarmonia na família, delinquência dos filhos, desemprego, falência, dificuldades financeiras etc. Os sofrimentos e as dificuldades surgem sucessivamente como ondas bravias. É por essa razão que praticamos o Budismo de Nichiren Daishonin — para fortalecer a nós mesmos. Não há, em absoluto, qualquer tipo de destino que não possa ser superado por meio da fé.1
Um dos principais aspectos que desvendam esse triunfo diante do medo e das frustrações é a forma como encaramos a fé. Se desejamos ter sabedoria, precisamos evidenciá-la.
Fé no Budismo Nichiren pressupõe ação corajosa para fazer acontecer. Mas, diante de situações adversas, sentindo-nos sem saída, em que não acreditamos numa solução, como conquistar essa força?
Ikeda sensei fala do propósito do nosso movimento e o elemento-chave para evidenciarmos esse poder do triunfo diante da desesperança:
— O objetivo do budismo é aliviar o sofrimento das pessoas. Isso não deve ser apenas um idealismo teórico, mas deve ser feito, de forma concreta, por meio da sabedoria aliada à ação. De nossa perspectiva, trata-se da “transformação da fé em sabedoria”, isto é, a conquista da sabedoria do buda em nossa vida pela prática da fé. Portanto, tudo se inicia com a oração, e devemos continuar orando e agindo até surgirem os resultados. Tanto Shakyamuni como Nichiren Daishonin eram pessoas de ação. Nós também devemos ser assim.2 Eis, portanto, um divisor de águas para os que iniciam a prática budista na Soka Gakkai. Para ilustrar, trazemos pontos de reflexão sobre o princípio de “transformação da fé em sabedoria” (ishin-daie), elucidado acima. Ou seja, a forma de manifestarmos a mais suprema sabedoria para lidar com as questões da vida, seja de trabalho, relacionamento humano, saúde e, principalmente, falta de crença em si mesmos. “É possível abrir quantos caminhos necessitar. Jamais haverá beco sem saída. A fé na Lei Mística é o que evidencia a ilimitada sabedoria.”3
Para apoiar a compreensão dos pontos norteadores do princípio budista de “transformação da fé em sabedoria”, abrimos alguns tópicos.
Tudo começa com a oração
A oração é a força motriz para manter uma prática correta e uma ação tenaz, ensina Ikeda sensei. Com a revelação do Nam-myoho-renge-kyo, em 1253, o buda Nichiren Daishonin abriu o caminho para que pessoas comuns, como nós, possam despertar para a mais elevada condição interior, que não se abala diante das intempéries da vida. No Budismo Nichiren, não há fé cega nem abstrata. Praticamos a fé, ou seja, fortalecemos nossa energia vital ao realizarmos essa oração e partimos para a ação, com coragem. Por esse motivo, nos momentos em que compartilhamos nossas dúvidas e angústias com veteranos da prática da fé, ouvimos: “Faça daimoku” — a recitação Nam-myoho-renge-kyo. Isso porque ao recitarmos com sinceridade e seriedade, manifestamos força e sabedoria para fazer das dificuldades trampolins de avanço e de vitória. Saímos da inércia e seguimos a passos seguros rumo aos objetivos. O Mestre encoraja:
O caminho para escalar a montanha da vida não é, de forma alguma, uma linha reta. Há sucessos e fracassos. Às vezes, vencemos; outras vezes, perdemos. A cada passo que avançamos e a cada curva que fazemos, crescemos um pouco mais. Nesse processo, a oração age como uma poderosa força; ela nos impede de nos tornarmos arrogantes quando vencemos e garante que não sejamos devastados quando perdemos. Por essa razão, não há ninguém tão forte quanto as pessoas que baseiam a vida na oração.4
As sutilezas do coração
Na mesma obra do trecho citado, Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz, o presidente Ikeda exemplifica as sutilezas do coração humano, considerando que, para aqueles que são negligentes na oração, as coisas podem parecer caminhar tranquilamente por um tempo, fazendo-os se sentirem otimistas. “Mas, quando se deparam com a adversidade, tendem a cair no desespero e sua vida fica frágil como uma árvore seca.”5 Ele reforça que a oração — a recitação do Nam-myoho-renge-kyo — é o único caminho que nos possibilita enfrentar, no nível mais fundamental, as ilusões inerentes à nossa vida.
Ação com propósito
Ao mesmo tempo, Ikeda sensei ensina sobre a importância do reflexo da sabedoria adquirida pela oração resoluta: não ficar de braços cruzados.
No Budismo de Nichiren Daishonin, a oração por si só não é suficiente. Assim como uma flecha atirada ao seu alvo contém a energia máxima do atirador, nossa oração também contém todos os nossos esforços e ações. Oração sem ação é mero autoengano, e ação sem oração não produz nenhum resultado. Portanto, gostaria de enfatizar que a sublime oração surge de um sublime senso de responsabilidade. A oração com seriedade não surge de atitudes irresponsáveis e negligentes no trabalho, na vida diária e na própria vida. A oração sublime se torna um hábito quando a pessoa assume a responsabilidade por todos os aspectos de sua vida e se empenha ao máximo em tudo que faz.6
Orar e agir, até conseguir
Vale destacar um dos atributos da pessoa que aplica na vida o conceito de “transformação da fé em sabedoria”: a persistência. Não oramos para conseguir atingir um objetivo, mas “até” conseguir. Os escritos de Nichiren Daishonin são guias inspiradores para uma vida movida à resoluta convicção de que a vitória é certa. Em um desses escritos, Carta para Niike, consta uma famosa passagem: “Por exemplo, a jornada de Kamakura a Kyoto leva doze dias. Se viajar onze dias e parar quando estiver faltando apenas um dia, como poderá admirar a Lua sobre a capital?”.7
Essa prática de continuidade nos permite não só produzir benefícios imediatos ou perceptíveis, mas compreendermos os fatos que surgem no decorrer da vida, ou seja, os benefícios imperceptíveis. Sempre com a visão da sabedoria suprema, que nos faz enxergar além da nossa capacidade de mortal comum. O estudo do budismo aplicado à oração e ação é, portanto, o tesouro para os que decidem ter uma vida de plena realização.
Orar para si e para o outro
Há uma feliz comprovação entre os que praticam o Budismo de Nichiren Daishonin ao verem quanto a mudança provocada interiormente é capaz de influenciar todos à sua volta. Ao transformarem a fé em sabedoria, nós nos vemos envolvidos não apenas na oração para superar as adversidades que surgem, mas no poder de inspirar outros a fazer o mesmo. Ter escuta ativa, possuir compaixão e oferecer um ombro para os que sofrem. Não existe budista egoísta, o que denota o grau de sabedoria elevada diante de um cenário cada vez mais individualista apresentado pela sociedade. Basta olhar os tempos atuais, em que muitos ainda se sentem paralisados diante do medo e das frustrações decorrentes da pandemia que assolou o mundo. Orar para si e para o outro cria a sinergia da boa sorte para todos ao redor. Essa é a gloriosa missão de um budista. Uma forte inspiração vem das palavras do nosso mestre.
A oração provoca a mudança em nosso coração, no mais profundo âmago da nossa vida. Essa transformação interior não se limita apenas a nós (mas inspira outros a fazer o mesmo). Igualmente, quando uma comunidade muda, a transformação não é limitada a ela. Assim como uma simples onda é capaz de provocar o surgimento de inúmeras outras, a mudança de uma comunidade também provoca a transformação de outras. Afirmo que o primeiro passo para tal transformação se resume em mudar o coração de um único indivíduo.8
Juntos e motivados
O fim de 2022 se aproxima e para nós, da Soka Gakkai, as expectativas são de renovada esperança. Em encontros ainda no formato híbrido, nas organizações de base da BSGI, os membros permanecem de coração aberto para se incentivar mutuamente e, com a “união de ‘diferentes em corpo, unos em mente’”, revelar a força da prática da fé e do humanismo Soka, que abarca a todos, indistintamente. A felicidade do outro configura-se na nossa própria felicidade. Isso é o que chamamos kosen-rufu.
Dedicamos estas palavras do poema de Ikeda sensei para que a confiança em provocar verdadeiras transformações e benefícios na vida se fortaleça e inspire outros nessa jornada.
Quão forte é a existência
daqueles que possuem
a filosofia de vida de
transformação da fé
em sabedoria!
Enquanto houver fé corajosa,
a sabedoria não se esgotará.9
Notas:
- IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 30-II, p. 212.
- Ibidem, p. 309.
- Brasil Seikyo, ed. 2.173, 29 mar. 2013, p. A2.
- IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. Parte 1: A Felicidade, 2022. p. 127.
- Ibidem, 127.
- Ibidem, 129.
- Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. II, p. 294.
- IKEDA, Daisaku, Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. Parte 1: A Felicidade, 2022. p. 128.
- Brasil Seikyo, ed. 2.300, nov. 2015, p. B1.
Ilustração: GETTY IMAGES
FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO










