Cannabis medicinal: quando é indicada, riscos e o que a ciência diz

ROTANEWS176 22/02/2026 06:00

Por Giovanna Rodrigues

Entre benefícios comprovados e riscos reais, médicos esclarecem quando o uso é indicado, quais são as restrições e por que o acompanhamento profissional é indispensável

Reprodução/Foto-RN176 A cannabis medicinal deixou de ser um tema restrito a debates ideológicos e passou a ocupar espaço nas consultas médicas – (crédito: Reprodução/Freepik)

A cannabis medicinal deixou de ser um tema restrito a debates ideológicos e passou a ocupar espaço nas consultas médicas, nas decisões judiciais e nas conversas familiares. Com a ampliação das autorizações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para produtos à base de canabinoides e o aumento da procura por esse tipo de tratamento, surgiram dúvidas sobre regulação e acesso, e o tema ganhou relevância clínica, exigindo informação qualificada. Entre expectativas, dúvidas e receios, especialistas defendem que a conversa precisa sair do campo da opinião e se basear em evidências científicas sólidas. 

A ação da cannabis no organismo ocorre por meio do sistema endocanabinoide, que funciona como uma rede de “comunicação interna” que ajuda a regular funções importantes como dor, sono, apetite, humor e inflamações. O próprio organismo produz substâncias parecidas com as da planta para manter esse equilíbrio.

Na cannabis medicinal, os dois principais componentes usados são o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabidiol). O CBD não causa efeito psicoativo — ou seja, não dá sensação de “barato”. Ele é usado principalmente por ajudar no controle de convulsões, ansiedade e inflamações, e costuma ser bem tolerado. Já o THC é a substância que pode alterar a percepção e o comportamento. Ele também pode aliviar dor, relaxar os músculos e estimular o apetite, mas está mais associado a efeitos colaterais, principalmente no campo emocional e cognitivo.

De acordo com a neurologista Thaís Augusta Martins, coordenadora de Neurologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, as indicações com maior evidência científica atualmente são epilepsia — especialmente alguns tipos específicos —, dor crônica, espasticidade na esclerose múltipla e náuseas e vômitos provocados por quimioterapia.

No campo da psiquiatria, o médico psiquiatra Adiel Carneiro Rios ressalta que a indicação é mais restrita. Para depressão e para a maioria dos transtornos de ansiedade, não há comprovação forte de eficácia da cannabis como tratamento principal. Embora o CBD apresente sinais promissores para ansiedade em situações específicas, os estudos ainda têm limitações importantes, como amostras pequenas, curto tempo de acompanhamento e falta de padronização de doses. Para depressão, a evidência é ainda mais frágil e, quando há efeito, muitas vezes ocorre de forma indireta, como consequência da melhora do sono ou da dor, e não por um efeito antidepressivo consistente.

Para quem é indicado 

  • Epilepsia (com evidência alta para síndromes específicas);
  • Dor crônica;
  • Espasticidade na esclerose múltipla;
  • Náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia.

No caso da epilepsia, há comprovação de redução significativa de crises no caso de:

  • Síndrome de Lennox-Gastaut;
  • Síndrome de Dravet;
  • Esclerose Tuberosa.

Como a cannabis age no organismo?

Age no sistema endocanabinoide humano, composto por receptores (CB1 e CB2) e substâncias naturais produzidas pelo próprio organismo, como anandamida e 2-AG.

Esses receptores participam da regulação de funções como:

  • Dor;
  • Sono;
  • Apetite;
  • Humor;
  • Resposta inflamatória.

Compostos da cannabis medicinal 

CBD (canabidiol)

  • Não é psicoativo;
  • Não provoca sensação de “barato”;
  • Possui efeito anticonvulsivante;
  • Pode ter ação ansiolítica e anti-inflamatória;
  • Geralmente é bem tolerado.

THC (tetra-hidrocanabinol)

  • É psicoativo;
  • Pode causar alteração da percepção;
  • Tem efeito analgésico;
  • Atua como relaxante muscular;
  • Estimula o apetite.

Efeitos colaterais

Com CBD

  • Sonolência;
  • Tontura;
  • Alterações gastrointestinais;
  • Fadiga;
  • Possível alteração de exames hepáticos em doses elevadas.

Com THC

  • Sonolência;
  • Boca seca;
  • Taquicardia;
  • Alteração de apetite;
  • Prejuízo de memória e atenção;
  • Ansiedade;
  • Sintomas psicóticos em pessoas vulneráveis.

O tratamento deve ser sempre individualizado, iniciado com doses baixas e ajustado de forma progressiva, com acompanhamento médico periódico. Os resultados costumam ser percebidos ao longo de semanas, mas variam conforme a condição tratada.

Riscos e contraindicações 

O THC pode aumentar a ansiedade, precipitar crises de pânico e desorganizar o sono. Em pessoas vulneráveis, pode desencadear sintomas psicóticos, caracterizados por perda de contato com a realidade, com ideias delirantes ou alucinações. “Estudos populacionais mostram que quanto maior a frequência e a intensidade do uso, maior o risco de quadros psicóticos, especialmente em indivíduos com predisposição genética ou histórico familiar”, ressalta o psiquiatra Adiel Carneiro Rios. 

Bipolaridade X cannabis

Indivíduos com transtorno bipolar exigem atenção especial; essa condição envolve períodos de depressão alternados com fases chamadas de mania, que é um estado de humor anormalmente elevado ou intensamente irritável, acompanhado de energia excessiva, pouca necessidade de sono, fala acelerada, impulsividade e comportamentos de risco. “Estudos associam o uso de cannabis à piora do curso do transtorno bipolar e ao aumento de episódios maníacos”, explica Rios. 

Interação medicamentosa

A neurologista Thaís Augusta Martins alerta que a cannabis pode interferir na ação de antiepilépticos, sedativos, antidepressivos, anticoagulantes e opióides, o que reforça a necessidade de acompanhamento profissional. Na saúde mental, o psiquiatra Adiel Carneiro Rios destaca que substâncias podem aliviar sintomas, mas não substituem a psicoterapia. “Ansiedade e depressão envolvem padrões de pensamento, crenças e experiências que exigem abordagem terapêutica estruturada”, explica. 

Palavra do especialista

Como lidar com o estigma social associado à cannabis e orientar a família?

A melhor resposta ao estigma é a ciência. Nem demonização cega nem romantização ingênua. Cannabis não é cura universal. Também não é um mal absoluto. É uma substância com potenciais efeitos limitados e riscos reais. Quando a conversa sai da ideologia e entra nos dados, a discussão se torna adulta. O problema surge quando marketing substitui evidência. Quanto à família, é preciso lidar com clareza e honestidade. A família precisa entender que, para depressão e ansiedade, a evidência científica ainda é limitada. É essencial explicar riscos, possíveis benefícios, sinais de alerta e plano de acompanhamento. Também é importante deixar claro que o tratamento pode ser interrompido se não houver benefício concreto ou se surgirem efeitos adversos relevantes.

Pode causar prejuízo cognitivo?

Pode, especialmente com uso frequente e início precoce. Estudos longitudinais mostram associação entre uso regular na adolescência e pior desempenho em memória, atenção e funções executivas na vida adulta jovem. O prejuízo tende a ser mais evidente em usuários quase diários e em produtos com alta concentração de THC. O cérebro jovem é mais sensível. E isso não é opinião. É dado acumulado ao longo de décadas de pesquisa.

Dr. Adiel Carneiro Rios e médico psiquiatra e mestre em psiquiatria 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE