ROTANEWS176 08/11/2025 09:40
RELATO DA REDAÇÃO DO JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS
Ao transformar carma em missão, Ana Vitória desbrava o território amazônico.

Reprodução/Foto-RN176 Ana Vitória Moreira de Souza.. Na BSGI, atua como responsável pela Juventude Soka do Distrito Santarém, CRE Oeste, CGRE | Fotos: Arquivo pessoal
“Prezar cada pessoa” e “jamais desistir” são dois aprendizados que carrego como tesouro. Eu os relembro, diariamente, nas orações da prática budista, que me guiam e me ajudam a desbravar o campo de missão que abracei.
Eu me chamo Ana Vitória Moreira de Souza, tenho 26 anos. Minha realidade hoje é bem diferente da maioria dos jovens das grandes cidades. Meu campo de atuação é na Terra Indígena Cobra Grande, território localizado à margem esquerda do rio Arapiuns a aproximadamente 45 quilômetros do porto de Santarém, PA.

Reprodução/Foto-RN176 Ana com os familiares. Aqui, no aniversário de seus 26 anos. A esquerda pelo pai, Diogo , e a irmã Adria. Á direita estão a mãe Rejânia, e o irmão, Vitório Henrique
Os saberes e modos de vida são baseados em pesca, caça, coleta, extrativismo, artesanatos, cultivo de roças familiares e criação de animais para o consumo. São os principais responsáveis pela proteção das matas e dos rios.
É nesse ambiente que, desde junho deste ano, eu me dedico ao mestrado em antropologia, com muita gratidão e senso de missão única a cumprir. Aos 26 anos, sinto quanto a relação com meu mestre da vida, Dr. Daisaku Ikeda, me inspira a avançar.

Reprodução/Foto-RN176 Ana em atendimento psicológico, como voluntária da Associação de Saúde Indgenas Cobra Grande (julho em 2025)
Budismo como base
Nasci em Oriximiná, PA, norte do país. Meu avô e a família de sua irmã já praticavam o Budismo de Nichiren Daishonin e eram os únicos na nossa cidade, então cresci participando das reuniões mesmo sem ser membro da organização. Quando eu tinha 11 anos, meus pais, Diogo e Rejânia, receberam o Gohonzon e há quase quinze anos toda a minha família pratica junto. Faço parte do grupo Asas da Paz Kotekitai, com a mesma oportunidade que meus irmãos, Vitório Henrique e Adria, têm de vivenciar o ambiente dos grupos horizontais que a BSGI nos proporciona. Quanta gratidão!

Reprodução/Foto-RN176 Ana com os jovens da localidade, numa atividade de grupos horizontais
Morei em Oriximiná até os 17 anos, quando mudei para Santarém, PA, para iniciar a faculdade, formando-me psicóloga em 2021. No ano seguinte, surgiu a oportunidade de atuação voluntária em uma ação de saúde indígena no Território Indígena Cobra Grande, em Santarém e eu aceitei. Conheci muitas histórias e uma realidade que me sensibilizou. No budismo, aprendemos a transformar carma em missão e 2024 se revelaria como a grande virada de chave.
Saúde desafia

Reprodução/Foto-RN176 Ana numa das embarcações que utiliza para chegar à aldeia
Determinei que 2024 seria um ano de vitórias, mas, em fevereiro, precisei ficar internada devido a uma trombose venosa profunda. Esse período coincidiu com a inscrição para participar da Convenção da Juventude Soka, em São Paulo, SP, e não sabia se teria condições para isso. Então, veio à mente a trajetória de Ikeda sensei, um jovem que lutou (e venceu) o carma de doença, financeiro e outros. Direcionei orações: iria sim, como forma de agradecimento e por ser o momento de um novo juramento.

Reprodução/Foto-RN176 Fauna exuberante. Aqui Ana segura um jabuti terrestre da ordem dos quelônios, criado por uma das famílias que visita
Em maio, já com a passagem comprada, desafios e decisões surgem: um processo seletivo de mestrado em antropologia na Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém; e o diagnóstico da doença que me acompanha, causadora da trombose. Convivo com uma doença rara e grave, auto-imune, chamada síndrome do anticorpo anti-fosfolípide (SAF), e faço uso de anticoagulante oral e acompanhamento de INR [monitoramento regular da capacidade de coagulação do sangue] a cada 21 dias para prevenir novas tromboses, hemorragias, AVC e infarto, além de cuidados rigorosos com a alimentação. Orei intenso daimoku, recebi liberação médica para viajar e assim venci.

Reprodução/Foto-RN176 Ana na frente da casa de artesanato, na Terra Indígena da Cobra Grande, dentro da Casa de Artesanato é o local em que são expostas artes e trabalhos produzidos pelas famílias locais
Vencer é meta
Voltei da convenção dos jovens para minha localidade com sentimento renovado. Um ano depois, 2025, estava eu em uma das aldeias do território indígena conquistando a aprovação da pesquisa e do tema de estudo. Acredito ser essa a força da determinação, pois, coincidentemente, ocorreu dois anos depois que escrevi uma carta para sensei, enquanto participava da 3a Academia Índigo, em São Paulo, em 18 de junho de 2023, falando do meu desejo em ingressar em um mestrado. Jurei que essa seria uma das ferramentas para ser cidadã do mundo, que faz a diferença na vida das pessoas, tendo o prazo até 2030 para concretizar esse objetivo.

Reprodução/Foto-RN176 Um pouco dos sabores de vida locais, baseados em pesca extrativismo, entre outros
Quando me dei conta das coincidências de data e do que havia comunicado a sensei, compreendi a importância da responsabilidade que assumi a partir daquele momento e não podia sucumbir. Era o momento de pôr em prática tudo que havia aprendido com ele.
Pensar nas restrições e nos cuidados com a minha saúde parecia me distanciar do campo de pesquisa em território indígena. Preciso me locomover de barco e no meio do rio descer a uma bajara — um tipo de canoa amazônica com casco largo e geralmente com espaço para a instalação de motor — para poder chegar ao porto das aldeias. Com apoio dos familiares e também da minha companheira Nayana, dedico-me com confiança. É o local de minha missão como jovem Soka.

Reprodução/Foto-RN176 Ana dialoga com convidados na localidade, interessados em conhecer o humanismo Soka
Tenho experienciado tudo isso não apenas para produzir bons resultados acadêmicos, mas para contribuir com a vida de pessoas preciosas do nosso país. Além da recitação do Nam-myoho-renge-kyo, o que me mantém em movimento é a relação de mestre e discípu-lo. Empenhar-me pela felicidade das pessoas é o que aproxima e fortalece essa relação, para continuar onde estou, esforçando-me cada vez mais, sem desistir. Ikeda sensei, conte sempre comigo!
Ana Vitória Moreira de Souza, 26 anos. Psicóloga e mestranda em antropologia. Na BSGI, atua como responsável pela Juventude Soka do Distrito Santarém, CRE Oeste, CGRE.
FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO










