Marcas chinesas vendem carros no Brasil sem fazer todos os testes necessários, diz CEO da VW

LANÇAMENTO: DA VW E ALERTA! –

ROTANEWS176 05/03/2026 23:52  

Por Giovanna Riato

A queda de braço entre montadoras tradicionais e fabricantes chinesas ganhou um novo capítulo. Desta vez, o CEO e presidente da Volkswagen do Brasil, Ciro Possobom, apontou que “há marcas trazendo carros para o Brasil sem fazer todos os testes necessários”, acusando algumas entrantes de acelerar lançamentos sem o devido compromisso com a qualidade.

“Enquanto rodamos 100 mil km em testes, por exemplo, algumas empresas rodam 50 mil km. Elas não fazem como nós, que submetemos o carro a dois invernos e a dois verões para ver como os materiais reagem a diferentes temperaturas”, disse o executivo ao receber um grupo de jornalistas na fábrica da Volkswagen na Anchieta, em São Bernardo do Campo (SP).

Possobom afirmou ainda que, no passado, outras empresas entraram no mercado brasileiro sem fazer os testes e as adaptações necessárias e, agora, anos depois, não conseguem crescer alcançar um patamar superior a 1% de participação nas vendas. “Isso desgasta a imagem da marca e, depois, você não recupera”, diz, fazendo alusão a problemas de qualidade e pós-venda.

Reprodução/Foto-RN176 Próxima geração da picape Volkswagen Amarok já está em testes no Brasil sobre plataforma da chinesa SAIC Foto: @placaverde/Instagram

Eletrificação precisa ser feita direito

O presidente da Volkswagen afirma que o rigor no processo de pesquisa, desenvolvimento e validação é uma característica da montadora alemã. É por isso, justifica ele, que a empresa ainda não avançou na oferta de carros híbridos e elétricos no Brasil.

Vale lembrar que as marcas chinesas entraram de forma incisiva com modelos elétricos e híbridos no Brasil em 2023. Agora, três anos depois, a Volkswagen passará a oferecer uma versão eletrificada em todos os lançamentos realizados no país.

O modelo que deve inaugurar essa nova fase é a picape Tukan, que entrará na briga com a Fiat Toro e contará, desde o início, com uma versão híbrida. Possobom aponta, no entanto, que a eletrificação nem sempre é a única resposta imediata.

O executivo explica que um carro híbrido pode ter um custo de R$ 20 mil a R$ 30 mil superior ao equivalente a combustão. “Muitas vezes, o benefício é pequeno para um impacto tão grande no preço. Ninguém reclamou que o Tera foi lançado sem uma versão eletrificada, justamente porque o carro é acertado”, diz sobre o SUV compacto que, em menos de um ano de produção, já se aproxima das 100 mil unidades fabricadas.

Reprodução/Foto-RN176 VW TUKAN Foto: Divulgação/Volkswagen

Novas marcas podem ser ‘Cavalo de Troia’

Além de defender a estratégia da Volkswagen, o presidente da companhia foi categórico ao afirmar que a tática de algumas marcas chinesas é perigosa para a indústria local.

O executivo comparou a situação ao “Cavalo de Troia” — que, na mitologia grega, foi um presente dado aos troianos, mas recheado de soldados gregos para destruir a cidade por dentro.

“O volume de carros importados no ano passado substituiu a produção de três fábricas no Brasil”, afirmou, ressaltando o impacto negativo nos empregos e na geração de renda. O executivo lembrou que foram trazidos do exterior mais de 500 mil veículos, “a maioria por marcas sem produção local efetiva”.

O intenso movimento de importação ocorreu para aproveitar os descontos de impostos para modelos elétricos e híbridos — válidos até o meio deste ano. Além disso, de julho de 2025 a janeiro de 2026 era possível importar carros em formato de kits semidesmontados e desmontados (SKC e CKD) com isenções fiscais.

Com isso, Possobom observa que o patamar de estoques no Brasil subiu excessivamente, de uma média de 200 mil unidades para mais de 350 mil veículos. “Mais de 80% desse volume são carros chineses”, estima.

“Se a empresa faz muito estoque e não consegue vender rápido, começa a liquidar o preço. Isso destrói valor para todo o segmento e atrapalha as empresas que têm investimentos de longo prazo no país”, diz, lembrando que a Volkswagen aportará R$ 20 bilhões na América do Sul até 2028.

Segundo o executivo, a estratégia da marca é oposta a de algumas entrantes do mercado: evitar níveis elevados de estoque e produzir com alto índice de conteúdo nacional. “A Tukan será lançada já com 85% de conteúdo local”, afirma. Atualmente, a Volkswagen é a segunda marca que mais vende carros no Brasil, atrás apenas da Fiat.

Possobom entende que, se o preço para alcançar a liderança for sacrificar a lucratividade com promoções, a marca alemã seguirá confortavelmente na segunda colocação. “Poderíamos liderar o mercado brasileiro ao baixar preços, mas não é o que queremos. Precisamos combinar volume de vendas com rentabilidade”, conclui.

FONTE: ESTADÃO CONTEÚDO