ROTANEWS176 29/03/2025 11:00 Por Ho Goku
Capítulo “Juramento Seigan”, volume 30
Reprodução/Foto-RN176 Desenho de Ilustração da matéria – ilustração de Kenichiro Uchida
Parte 21
O que Nichiren Daishonin almejava era a felicidade das pessoas que lutavam contra os sofrimentos. Seu objetivo não era só o kosen-rufu de um único país, o Japão, mas a ampla propagação para todo o Jambudvipa [o mundo inteiro], isto é, o kosen-rufu mundial ou a paz e a felicidade de toda a humanidade. Quando nos voltamos a esse espírito de Daishonin, nasce em nós próprios a ideologia de coexistência harmoniosa de todas as pessoas, e da busca do bem comum da humanidade.
Em fevereiro de 1952, época em que se intensificavam as tensões entre Oriente e Ocidente num mundo dividido entre Estados Unidos e União Soviética, Josei Toda clamou por uma ideologia de “cidadania global”. Isso também expressava um pensamento budista.
Os membros da Soka Gakkai, que praticam o Budismo Nichiren, possuem uma filosofia de vida que considera todas as pessoas valorosas, iguais e possuidoras do direito de ser feliz. Quando veem o sofrimento de alguém, manifestam a empatia e o desejo de que a pessoa se torne feliz, e encorajam-na com espírito compassivo. Expandir a simpatia para essa forma de pensar e de viver é o sólido movimento de base em prol da paz capaz de unir as pessoas do mundo.
Em abril de 1982, estourou a guerra entre a Inglaterra e a Argentina sobre o controle das Ilhas Malvinas ao sul do Oceano Atlântico.
A guerra prosseguiu por algumas semanas nas ilhas, mas em meados de junho o conflito teve fim com a rendição das tropas da Argentina. Porém, as relações diplomáticas entre os dois países só foram restabelecidas em fevereiro de 1990. As tropas de ambos os países sofreram baixas na guerra, com um total de mais de novecentos mortos.
Os líderes da SGI de ambos os países, inclusive seus diretores-gerais, se conheciam por ter participado juntos em diversos cursos de treinamento no Japão. Enquanto a guerra continuava entre os dois países, com a crescente hostilidade entre seus povos, os membros da SGI-Inglaterra e da SGI-Argentina iniciaram a recitação do daimoku orando pela paz. As pessoas, pensando mutuamente nos companheiros do outro país, oraram com fervor pelo término da guerra.
A ativista social e humanista americana Eleanor Roosevelt (1884–1962) declarou: “Para realizar a paz neste mundo, é preciso criar, inicialmente, melhor compreensão entre os indivíduos. A partir dessa semente, cresce a melhor compreensão mútua entre os grupos”.1
O alicerce da paz se encontra na confiança de um ser humano com o outro.
Parte 22
Em 1983, ano seguinte à guerra nas Ilhas Malvinas, o diretor-geral da SGI-Reino Unido, Raymond Gordon, descreveu a situação da época numa entrevista para o jornal Seikyo Shimbun: “A maioria dos membros do Reino Unido orou do fundo do coração ao Gohonzon para que a guerra terminasse quanto antes. Preocupado, telefonei para os membros da Argentina (diretor-geral da SGI-Argentina, Kazuya Okida), quando soube que eles também, como nós, estavam recitando daimoku, orando pela paz. Ouvindo isso, senti profundamente que, apesar de os nossos dois países estarem tão distantes e politicamente se encontrarem, infelizmente, em conflito militar, compartilhávamos o mesmo desejo pela paz. Estávamos unidos por uma calorosa ligação humana e genuína intenção pela paz”.
Gordon orava pela transformação do destino de sua pátria, a Inglaterra.
Em maio de 1982, enquanto a guerra ainda continuava, Gordon foi ao Japão e acompanhou Shin’ichi Yamamoto na visita ao Parque da Paz em Nagasaki. Ofereceu flores ao monumento pela paz, orando pela paz perene no mundo e em memória das vítimas da bomba atômica, como também pelo término da Guerra das Malvinas. Felizmente o conflito chegou ao fim no mês seguinte sem que se expandisse ainda mais.
Em março de 1983, menos de um ano do término da guerra, a SGI-Reino Unido realizou uma exposição audiovisual pela paz em Londres, intitulada Exposição pela Paz Mundial, com o tema central Choose Life [Escolha a Vida]. O evento foi divulgado por jornais e emissoras de rádio e de televisão, tais como a BBC, e não faltaram elogios e admirações.
Se a ideologia do absoluto respeito à dignidade da vida for estabelecida no coração das pessoas de todo o mundo, pode-se unir a humanidade em prol da paz. No nível mais fundamental, a construção da paz está em estabelecer firmemente essa ideologia, e expandir incessantemente o círculo de pessoas que a abraçam e a apoiam.
Em março de 1986, representantes da SGI-Reino Unido e da SGI-Argentina foram ao Japão e realizaram o curso de treinamento conjunto na sede da Soka Gakkai em Tóquio. Eram membros que, juntos, vieram orando continuamente pela paz. A tensão inicial se dissipou instantaneamente. Juntos, renovaram o juramento “Como monarcas da paz, continuaremos a lutar até acabar com a guerra no mundo!”.
Parte 23
Shin’ichi acreditava que expandir de forma concreta o movimento pelo kosen-rufu transmitindo amplamente o pensamento humanístico e pacifista do budismo ao mundo, criando profundas raízes em meio ao povo, era o ponto essencial para construir o inabalável alicerce da paz perene. O poder do povo e as forças de base formam a sólida opinião pública contra a guerra e contra as armas nucleares, ao mesmo tempo em que se tornam a força motriz para unir as pessoas do mundo.
Por outro lado, estava fortemente decidido a criar uma correnteza global de paz em torno das Nações Unidas e a continuar mantendo diálogos com os líderes de cada país.
Estava decidido a se esforçar especialmente para a realização de intercâmbios culturais e educacionais com as universidades do mundo de forma a estreitar os laços de solidariedade para promover a paz e a amizade entre os estudantes que se encarregarão do futuro.
O mundo da política é facilmente levado pela correnteza da época, mas o mundo acadêmico possui universalidade e continuidade. Os estudantes que se graduam em elevada instituição acadêmica de um país se tornam os líderes da construção social da geração seguinte. O intercâmbio entre as pessoas da geração jovem haverá de se tornar uma nova força a unir o mundo na era da globalização.
As ações de Shin’ichi se intensificavam. Objetivando o incentivo aos membros, passou a viajar mais que antes por todo o Japão, como também pelo mundo.
Em maio e em junho de 1983, visitou os Estados Unidos e a Europa.
No ano seguinte, em fevereiro e em março de 1984, viajou novamente para os Estados Unidos e também para a América do Sul. Nessa ocasião, visitou o Brasil depois de dezoito anos e se encontrou com o presidente da República, João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918–1999), que, em maio de 1982, havia lhe enviado uma carta pessoal convidando-o a vir ao Brasil. O encontro ocorreu no dia 21 de fevereiro no gabinete da Presidência em Brasília, capital federal.
Durante a sua visita ocorrida dezoito anos antes, Shin’ichi estava sob constante e forte vigilância da polícia política. Havia muitas autoridades do governo que acreditavam em visões distorcidas sobre a Soka Gakkai e em boatos criados por pessoas hostis de origem japonesa de que a Soka Gakkai era “uma organização política camuflada como religião”.
A partir de então, iniciou-se uma árdua luta dos membros do Brasil objetivando ampliar na sociedade o círculo de confiança e de compreensão em relação à Soka Gakkai. Um mal-entendido se cria instantaneamente, mas para desfazê-lo e conquistar a confiança leva-se um longo tempo, muitos anos ou décadas de trabalho.
Parte 24
Em 1974, Shin’ichi Yamamoto estava com visita programada para o Brasil, mas acabou não se realizando por não ter lhe sido concedido o visto de entrada ao país. Os membros do Brasil lamentaram pela incapacidade de dissipar o mal-entendido em relação à Soka Gakkai. Todos juraram profundamente: “Vamos intensificar ainda mais o diálogo e a contribuição social para o reconhecimento da Soka Gakkai pela sociedade, e vamos criar sem falta uma época em que o próprio governo brasileiro solicite a visita do presidente Yamamoto!”.
O espírito indomável cria a causa para a vitória em meio a um lamaçal de adversidades.
Finalmente, em fevereiro de 1984, ocorreu a visita de Shin’ichi ao Brasil e o encontro com o presidente João Baptista Figueiredo.
Reprodução/Foto-RN176 Desenho de Ilustração da matéria – ilustração de Kenichiro Uchida
No encontro, o presidente Figueiredo informou a Shin’ichi sobre a previsão de sua viagem ao Japão no final de maio ou no início de junho daquele mesmo ano. Dialogaram também sobre a cooperação científica e tecnológica entre Brasil e Japão, a transição do regime militar para o democrático no Brasil, as questões sobre as armas nucleares e suas perspectivas. Em particular, o presidente Figueiredo manifestou plena concordância à sugestão de Shin’ichi de que o diálogo entre os líderes das nações do mundo é o caminho para um mundo sem guerras.
Em Brasília, Shin’ichi se encontrou ainda com os ministros das Relações Exteriores, da Educação e da Cultura, e também tirou foto comemorativa com seiscentos membros. Além disso, visitou a Universidade de Brasília, participando de uma cerimônia de doação de livros à biblioteca da instituição.
Em 25 de fevereiro, realizava-se o ensaio geral do primeiro grande festival cultural do Brasil, e Shin’ichi visitou o Ginásio do Ibirapuera, um centro esportivo do estado de São Paulo. Sob enorme aclamação, Shin’ichi deu a volta no grande círculo central do ginásio com os braços erguidos. Então, em meio ao profundo sentimento de emoção, Shin’ichi disse ao microfone:
— Estou imensamente feliz pelo encontro radiante com meus companheiros, nobres emissários do Buda, depois de dezoito anos. Não tenho dúvidas de que este extraordinário festival cultural ficará brilhantemente registrado na história do Brasil e nos anais do kosen-rufu. Imagino como devem ter sido os esforços inacreditáveis, os avanços grandiosos que conquistaram e as belas cooperações de coração a coração. Quero louvar a todos com lágrimas nos olhos, com profunda gratidão, e com o sentimento de cumprimentar e abraçar cada pessoa.
Uma grande ovação de alegria irrompeu no ginásio de esportes, ecoando o grito de vitória dos brasileiros: “É pique, é pique, é pique, pique, pique!…”
O personagem do presidente Ikeda no romance é Shin’ichi Yamamoto, e seu pseudônimo, como autor, é Ho Goku.
Ilustrações: Kenichiro Uchida
Nota:
- ROOSEVELT, Eleanor. This Troubled World [Esse Mundo Preocupante]. Nova York: H. C. Kinsey and Company, Inc., 1938. p. 18.
FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO