O risco existencial da vida espelhada extraterrestre

ROTANEWS176 22/08/2025 16:03

Há meio século, fomos aconselhados, em tom de brincadeira, a nunca apertar a mão de alienígenas, pois eles poderiam ser feitos de antimatéria. Nesse caso, tocá-los levaria à aniquilação mútua.

Reprodução/Foto-RN176 Crédito da imagem ilustrativa: n3m3/Bing/DALL-E 3

Hoje, graças aos avanços na astronomia de raios gama e raios cósmicos, sabemos que a antimatéria é um constituinte insignificante no balanço de massa cósmica. Essas circunstâncias são bem compreendidas no contexto da densa fase inicial do Universo, quando todos os traços de antimatéria se aniquilaram com a matéria, deixando para trás um minúsculo excesso de matéria (seis partes em dez bilhões) que explica o que observamos no Universo hoje.

Mas há outra razão importante para evitar o contato com vida extraterrestre: ela pode ser uma imagem espelhada da vida terrestre.

Em 1848, o químico Louis Pasteur descobriu que algumas moléculas essenciais à vida existem em formas de imagem especular. As duas formas são chamadas de “canhota” e “destra”, onde a quiralidade se refere à direção na qual a luz polarizada gira à medida que se propaga através de uma solução das moléculas. A biologia na Terra quebrou a simetria e escolheu a homoquiralidade, representando apenas uma dessas formas quirais. DNA, RNA e seus blocos de construção são todos destros, enquanto aminoácidos e proteínas são todos canhotos. A quebra de simetria pode ter ocorrido antes ou depois do surgimento da vida. Essa incerteza pode ser resolvida quando descobrirmos vida fora da Terra.

Se for descoberto que a vida extraterrestre tem probabilidades iguais de ser canhota ou destra, saberemos que a simetria foi acidentalmente quebrada na Terra, de forma que a unilateralidade dominou a ecologia terrestre. Isso também sugeriria que a transferência de vida entre planetas, chamada panspermia, é insignificante, pois teria naturalmente levado a uma única lateralidade dominante em sistemas que compartilham uma herança comum.

Um artigo do Policy Forum, coautorado por 38 especialistas renomados, publicado na revista Science, alerta para o risco existencial da vida espelhada, com base em um relatório técnico de 299 páginas intitulado “Bactérias-espelho: Viabilidade e Riscos“. Nas bactérias-espelho, o DNA, o RNA, os aminoácidos e as proteínas são substituídos por suas imagens espelhadas. Avanços futuros na biologia sintética podem levar à produção de bactérias-espelho. Suas interações com organismos naturais seriam diferentes das interações de bactérias naturais com organismos naturais.

As defesas imunológicas dependem de interações entre moléculas quirais que podem não conseguir detectar ou eliminar bactérias-espelho. Como resultado, as bactérias-espelho podem se espalhar por toda a ecologia da vida terrestre natural, sem serem controladas por controles biológicos naturais. As bactérias-espelho apareceriam como patógenos perigosos para uma ampla gama de formas de vida natural, incluindo humanos. O relatório detalha os riscos resultantes para a saúde de humanos, outros animais e plantas, bem como as potenciais consequências ecológicas.

Com base nisso, o artigo de política científica conclui:

“A menos que surjam evidências convincentes de que a vida-espelho não representaria perigos extraordinários, acreditamos que bactérias-espelho e outros organismos-espelho, mesmo aqueles com medidas de biocontenção projetadas, não devem ser criados. Portanto, recomendamos que pesquisas com o objetivo de criar bactérias-espelho não sejam permitidas e que os financiadores deixem claro que não apoiarão tal trabalho.”

Mas e se a natureza criasse vida-espelho em outro planeta? Deveríamos nos preocupar com essa vida-espelho sendo entregue ao nosso planeta natal dentro de uma rocha ou em uma missão de Retorno de Amostras para Marte? Isso constituiria o análogo interplanetário dos serviços de entrega da Amazon, com um pacote que inclui conteúdo que nunca pedimos.

O que acontece naturalmente em outros planetas não tem obrigação de satisfazer a recomendação dos 38 autores do artigo da Science. Uma coisa é clara: se alguma rocha com traços de vida-espelho tivesse sido entregue à Terra nos últimos 4,2 bilhões de anos desde o surgimento do Último Ancestral Comum Universal (LUCA), a vida terrestre conseguiu sobreviver aos seus potenciais danos. Caso contrário, as cianobactérias-espelho, que se alimentam de nutrientes não quirais e da luz solar, poderiam ter dominado o ecossistema da Terra produzindo versões-espelho de açúcares comuns. Animais-espelho teriam se alimentado de alimento-espelho, produzido por plantas-espelho. É possível que nenhum pacote com vida-espelho tenha chegado à Terra, porque um mecanismo universal favorece a mesma homoquiralidade para a vida em todos os lugares.

Até o momento, o novo relatório técnico e o artigo de política científica sugerem que devemos ter cuidado ao manusear materiais que potencialmente contenham vestígios de vida extraterrestre. Esse importante cuidado deve ser levado em consideração ao lidar com o retorno de amostras de Marte, a ambiciosa campanha multimissão da NASA e da ESA.

O risco à saúde também deve ser levado em conta ao seguir a visão inspiradora de Elon Musk de ocupar Marte e tornar os humanos uma espécie multiplanetária. A possibilidade do solo marciano conter relíquias de vida-espelho se soma aos riscos à saúde conhecidos, decorrentes de raios cósmicos energéticos e variações extremas de temperatura entre o dia e a noite na superfície de Marte.

Até que saibamos que a homoquiralidade é universal, devemos ter cuidado em nosso primeiro contato com vida extraterrestre.

FONTE: OVNI HOJE