Sejamos todos felizes 

ROTANEWS176 07/02/2026 11:15

ENCONTRO COM O MESTRE

Por Dr. Daisaku Ikeda

Nestes trechos selecionados de seus incentivos, Ikeda sensei ressalta que nossa felicidade e a das outras pessoas se conectam com a paz e com o bem-estar da humanidade.

Reprodução/Foto-RN176 Presidente Ikeda cumprimenta integrantes da Divisão dos Jovens da SGI-Alemanha durante o Curso de Aprimoramento da SGI (Japão, set. 2002). Ele foi; pacifista, filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista da SGI atualmente era o Mestre e Presidente da Soka Gakkai Internacional — Foto: Seikyo Shimbun

Ajudar os demais nos enriquece como seres humanos

O budismo é o caminho para a felicidade tanto de si próprio como dos outros, e para a vitória de todos. Servir aos outros à medida que perseguimos esse objetivo é uma ação que nos enriquece como seres humanos e que se torna um precioso tesouro pessoal.

DR. DAISAKU IKEDA

Embora plantar as sementes da felicidade na vida de uma pessoa após a outra possa parecer um longo processo, na verdade, é a ação mais fundamental para transformar todo o nosso planeta.

Uma árvore cultivada a partir de uma pequena semente leva um longo tempo até crescer, porém, uma vez que ela cresce e se fortalece, produzirá flores e frutos, e as pessoas encontrarão nela uma refrescante sombra para descansar. Cada um de nós deve se esforçar para se tornar essa árvore robusta.

O Budismo de Nichiren Daishonin é o caminho que conduz a nós e aos outros à felicidade. Sua prática não defende o martírio pessoal nem dos demais. Ainda que se sacrificar pelo próximo possa parecer uma nobre ação, não é algo que podemos esperar de todas as pessoas, pois isso seria total despropósito.

O verdadeiro propósito de nossa existência é que tanto nós próprios quanto as outras pessoas sejamos igualmente felizes. Devemos trilhar um caminho que empodere todos a ser vitoriosos na vida. Em outras palavras, enquanto nos dedicamos à felicidade dos demais, cultivamos gratidão a eles com estes sentimentos: “Todos os desafios que encarei para ajudar essa pessoa fizeram de mim um ser humano melhor. Que maravilhoso!”; “Os esforços que empreendi para auxiliar essa pessoa me fortaleceram. Ah, como lhe sou grato!”. O fato é que, quanto mais nos empenhamos em prol do kosen-rufu, mais afortunados e sábios nos tornamos. As atividades da SGI beneficiam a nós e aos outros ao mesmo tempo.

Você conhece alguém e conversa com ele, ora pela felicidade dele ou escreve-lhe um cartão-postal ou uma carta. Talvez a pessoa com quem planejou se encontrar não tenha aparecido, mas você continua em contato com ela de tempos em tempos. Essas atitudes podem parecer insignificantes e, muitas vezes, que você que não está chegando a lugar algum, mas, no futuro, quando olhar para trás, perceberá que nenhum esforço foi em vão. Pelo contrário, o desafio de se encontrar com outras pessoas e de incentivá-las fortaleceu e expandiu a própria vida. Perceberá que recitar daimoku pela felicidade daquela pessoa enriqueceu muito a você mesmo. Quanto mais o tempo passa — dez, vinte anos —, mais você notará que todas as suas ações se tornaram um precioso tesouro em sua vida.

Chegará o dia em que as pessoas das quais você foi ao encontro lhe demonstrarão gratidão. E, com alegria, elas compartilharão com outros como você as ajudou a se fortalecer na fé e a se tornar as pessoas que elas são hoje.

Seu objetivo deve ser o de exercer esse papel fundamental na vida do maior número de pessoas possível. Não há tesouro maior.

Adaptado de Juventude: Sonhos e Esperanças, v. 2, publicado em março de 2020.

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A prática do bodisatva: respeitar todas as pessoas

Em seu diálogo com o então presidente da Academia Brasileira de Letras e renomado jornalista Austregésilo de Athayde, o presidente Ikeda analisa as ações do bodisatva tal como ensinadas no Sutra do Lótus e o significado do caminho do bodisatva no budismo.

DR. DAISAKU IKEDA

Nossa felicidade não existe separada da felicidade dos outros. No budismo, a base de nossas ações é o sentimento de compaixão, que tem dois aspectos: aliviar o sofrimento e proporcionar bem-estar. É a compaixão de dissipar os medos e as angústias e transmitir alegria, tranquilidade e esperança.

Empenhar-se pela felicidade de todos é um ato natural como budista, ou melhor, como ser humano. Porém, às vezes, as coisas mais simples são as mais difíceis de fazer. O ensinamento do budismo é algo muito simples: valorizar cada pessoa. A palavra “buda” indica aquele que se esforça e empreende ações incansáveis pela felicidade e pelo bem-estar de cada pessoa.

No budismo, bodisatvas são aqueles que atuam com base no altruísmo, no desejo de beneficiar os outros. Nas escrituras budistas, são citados muitos bodisatvas, como Manjushri, Mérito Universal, Maitreya, Percebedor dos Sons do Mundo, Rei dos Remédios e outros. Cada um deles emprega suas qualidades únicas em benefício dos seres vivos, atuando para protegê-los e salvá-los de várias formas de sofrimento e infortúnio. Por exemplo, Manjushri representa a sabedoria; Mérito Universal, o conhecimento; e Maitreya, a compaixão. Percebedor dos Sons do Mundo alivia as aflições dos seres com seu poder de perceber o que está ocorrendo no mundo. Rei dos Remédios, como o nome indica, cura doenças com remédios benéficos.

Dentre os numerosos bodisatvas, Nichiren Daishonin destaca o bodisatva Jamais Desprezar, descrito no Sutra do Lótus, como exemplo de prática. Como o nome dele indica, ele jamais despreza alguém, demonstra o mais profundo respeito a todos.

No Sutra do Lótus, o bodisatva Jamais Desprezar cumprimenta as pessoas com todo o respeito, dizendo: “Eu os reverencio profundamente, jamais ousaria tratá-los com desdém ou arrogância. Por quê? Porque todos praticarão o caminho do bodisatva e serão capazes de atingir o estado de buda”.1 Nessa frase está condensado o espírito de respeito pela dignidade de todos os seres humanos. Conforme descrito no sutra, o bodisatva Jamais Desprezar unia as palmas das mãos em reverência e se curvava diante de cada pessoa com quem se encontrava.

Nichiren Daishonin considera esse comportamento do bodisat-va Jamais Desprezar a essência da prática do budismo, conforme escreveu:

O coração de todos os ensinamentos que o Buda expôs ao longo de sua existência é o Sutra do Lótus, e o coração da prática deste sutra se encontra no capítulo ‘Jamais Desprezar’.2

O comportamento do bodisatva Jamais Desprezar baseia-se na convicção inabalável de que todos os seres vivos são nobres porque são dotados da natureza de buda. Ao revelar a natureza de buda — a nobreza, ou dignidade, universal inerente a cada vida —, todo indivíduo é capaz de abrir caminho para uma existência inigualável. Avançar por este caminho junto com os outros é a prática do caminho do bodisatva.

Adaptado de Diálogo: Direitos Humanos no Século 21, publicado em fevereiro de 2018.

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Cultivar o tesouro do coração

O caminho do bodisatva constitui o modo mais valioso de vida e a recordação mais preciosa que gravaremos ao longo de nossa existência.

DR. DAISAKU IKEDA

Quando ajudamos os outros a se tornar felizes, nós também nos tornamos felizes. Este é também um princípio da psicologia. Como podem se reerguer aqueles que perderam até a vontade de viver, oprimidos pelo peso de sofrimentos inconsoláveis ou profundas feridas emocionais? Em geral, quanto mais permanecem orbitando em torno dos próprios problemas, mais agravam essa desesperança. Porém, a atitude de ir ao encontro de alguém que também está sofrendo e oferecer-lhe apoio possibilita-lhe reaver a vontade de viver. Quando agimos para aliviar o sofrimento dos outros, podemos curar nossas próprias feridas.

Muitos consideram que atuar pelo bem dos outros é perda de tempo. Alguns até ridicularizam a simples menção de generosidade e compaixão. Essa demonstração de arrogância e descaso alheio gera um sofrimento imensurável à sociedade.

Certa vez, um missionário norte-americano perguntou a Mahatma Gandhi: “Que religião o senhor pratica, e que tipo de religião o senhor acha que influenciará a Índia no futuro?”. Havia duas pessoas enfermas descansando na sala. Apontando para elas, Gandhi apenas respondeu: “Minha religião é servir às pessoas e trabalhar em prol delas. Não estou preocupado com o futuro”.3 Para Gandhi, a política e o governo também deveriam servir às pessoas e, como Rabindranath Tagore disse, trabalhar pelos “mais necessitados”.4

Tudo se resume à ação. A prática altruística do bodisatva é a essência da religião, do budismo, e também do governo e da educação humanitários.

Nós temos uma grandiosa missão. Daishonin declara: “Mais valioso que o tesouro do cofre é o do corpo. Porém, nenhum é mais valioso que o tesouro do coração”.5 O enfoque somente no “tesouro do cofre” — finanças ou economia — não melhorará a situação econômica. Talvez as coisas melhorem por um tempo, mas, no final, isso não contribuirá para o bem da sociedade. O mais importante são as pessoas, o coração. O que determina tudo é o coração. Aquele que cultiva tesouros do coração, que acumula boa sorte e sabedoria, naturalmente poderá obter inestimáveis tesouros do corpo e tesouros do cofre.

O que restará quando nossa existência chegar ao fim? As recordações que gravamos profundamente em nossa vida.

Em 1974, quando estive em Moscou, encontrei-me com o romancista russo Mikhail Sholokhov (1905–1984). Ele me disse: “Quando chegamos a uma idade avançada, as experiências dolorosas da vida são mais difíceis de recordar. Com o passar dos anos, as cores dos acontecimentos em nossa vida vão se dissipando, e tudo, desde os momentos mais alegres até os mais tristes, começam a perder nitidez”.

Após uma breve pausa, completou com um sorriso: “Quando o senhor chegar aos 70 anos, saberá que o que estou dizendo é verdade”. Havia uma grande profundidade em suas palavras.

Tudo passa. Tanto as inebriantes alegrias como os dilacerantes sofrimentos se desvanecem como um sonho. No entanto, o que jamais desaparece é a lembrança de termos desfrutado ao máximo a nossa existência. Em particular, as lembranças que se eternizam são as de nossa sincera dedicação ao kosen-rufu.

Com certeza, tudo o que permanece e adorna nossa vida no fim é o que fizemos ou contribuímos para o mundo ao longo de nossa existência, sabendo quantas pessoas ajudamos a se tornarem felizes e quantas pessoas nos são gratas por termos ajudado a transformar a vida delas para melhor.

Daishonin diz:

Recite o Nam-myoho-renge-kyo com atitude resoluta e sincera, e recomende com veemência aos outros que façam o mesmo; isso permanecerá como a única lembrança de sua existência neste mundo humano”.6

Extraído de A Sabedoria do Sutra do Lótus, v. 5, publicado em japonês em setembro de 1999.

Fonte:

IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 1: A Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 227-233.

Notas:

1. The Lotus Sutra and its Opening and Closing Sutras [Sutra do Lótus e seus Capítulos de Abertura e Conclusão]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, cap. 20, p. 308.

2. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. II, p. 113, 2017.

3. MORIMOTO, Tatsuo. Ganji to Tagoru [Gandhi e Tagore]. Tóquio: Daisanbunmei-sha, 1995. p. 116-117. Tradução do japonês.

4. Ibidem, p. 117.

5. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. II, p. 112, 2017.

6. Ibidem, v. I, p. 66, 2020.

FONTE: JORNAL SEIKYO SHIMBUN E JORNAL BRASIL SEIKYO=JSS/JBS