NASA fará missão inédita para “rebocar” telescópio espacial que corre risco de cair na Terra

ROTANEWS176 24/06/2026 09:03

Por Luiza Lopes

Reprodução/Foto-RN176 2306-rebocar-nave-layout_site© NASA/Divulgação

Uma missão de resgate está prestes a acontecer a centenas de quilômetros da Terra. O alvo não é um astronauta perdido ou uma nave com problemas, mas um telescópio espacial da Nasa que está lentamente caindo em direção ao nosso planeta.

O Observatório Neil Gehrels Swift foi lançado em 2004 para investigar alguns dos eventos mais violentos do Universo, as chamadas explosões de raios gama. 

Esses fenômenos são grandes liberações de energia que podem acontecer, por exemplo, quando estrelas gigantes chegam ao fim da vida e explodem em supernovas, ou quando objetos extremamente densos, como estrelas de nêutrons, se chocam.

Por mais de duas décadas, o Swift observou esses eventos. O telescópio consegue detectar uma explosão e, em poucos minutos, apontar seus instrumentos para a região onde ela aconteceu. Com isso, ajuda outros observatórios na Terra e no espaço a estudarem fenômenos que aparecem e desaparecem rapidamente.

Mas agora o próprio observatório precisa de ajuda. O Swift continua funcionando, mas está perdendo altitude. Quando foi lançado, ele orbitava a cerca de 600 quilômetros acima da superfície terrestre. Hoje, está a aproximadamente 370 quilômetros. Se nada for feito, a tendência é que continue descendo até entrar na atmosfera e ser destruído pelo calor da reentrada.

Isso acontece porque, mesmo no espaço, satélites próximos da Terra ainda sofrem uma pequena influência da atmosfera. Existem moléculas de gases que causam resistência e vão reduzindo lentamente a velocidade desses equipamentos. Com o passar dos anos, eles perdem altitude.

No caso do Swift, esse processo foi acelerado pelo Sol. A nossa estrela passa por ciclos de atividade de aproximadamente 11 anos, com períodos de maior e menor intensidade. O pico mais recente aumentou a ocorrência de tempestades solares, que aquecem e expandem as camadas superiores da atmosfera terrestre. Com mais partículas no caminho, o telescópio sofreu mais resistência e começou a cair mais rápido do que o esperado.

A Nasa imaginava que o Swift pudesse continuar em operação até o início da década de 2030. Em 2024, porém, percebeu que o prazo poderia ser muito menor e que havia risco de o observatório ser perdido já em 2026.

Para tentar evitar esse destino trágico, a agência espacial americana contratou a empresa Katalyst Space Technologies para enviar uma espécie de “rebocador espacial” para buscar o Swift.

A missão recebeu o nome de LINK. Neste sábado (27), será lançada uma pequena espaçonave robótica que deve levar algumas semanas até alcançar o Swift.

Quando chegar lá, ela vai analisar o observatório e tentar capturá-lo usando seus próprios braços mecânicos. Depois disso, a nave vai acionar seus motores para empurrar o conjunto gradualmente e levar o telescópio de volta para uma órbita mais alta, próxima da altitude original de 600 quilômetros.

Operação complicada

A operação é considerada especialmente difícil porque o Swift nunca foi feito para isso. Alguns equipamentos espaciais têm estruturas pensadas para acoplamento, ou seja, pontos específicos onde outra nave consegue se conectar. O Swift não tem nada do tipo.

Por isso, a espaçonave LINK terá que encontrar uma forma segura de segurá-lo sem danificar seus instrumentos científicos.

A Nasa já realizou manobras para prolongar a vida de telescópios espaciais antes. O caso mais famoso é o Hubble, que recebeu visitas de astronautas durante missões dos ônibus espaciais entre 1993 e 2009. Nessas viagens, eles fizeram reparos, trocaram equipamentos e ajudaram a elevar sua órbita.

A diferença é que, desta vez, não haverá ninguém a bordo. Todo o trabalho será feito por uma nave robótica.

O desafio também está no prazo. Em setembro de 2025, a Nasa concedeu um contrato de US$ 30 milhões à Katalyst. A empresa teve menos de um ano para preparar a missão, um período extremamente curto para os padrões da exploração espacial.

“Estamos fazendo isso em uma escala de tempo que é meio maluca para os padrões espaciais”, disse Brad Cenko, astrofísico e pesquisador principal do programa Swift, ao site IFLScience. “É um nível de risco diferente daquele com o qual a Nasa está acostumada a trabalhar.”

A missão exigiu mudanças na rotina do próprio telescópio. Desde fevereiro, o Swift interrompeu suas observações científicas. Ele foi colocado em uma posição planejada para reduzir ao máximo a resistência com a atmosfera e ganhar tempo até a chegada do resgate.

“Já estamos sentindo muita falta dele. É doloroso não tê-lo lá”, afirmou Daniel Perley, astrônomo da Universidade Liverpool John Moores, à Science. Segundo ele, “não existe outro telescópio espacial com a flexibilidade necessária para observar alvos com a mesma frequência e tempo de resposta que o Swift tinha”.

Se tudo der certo, a missão pode abrir caminho para uma nova fase da exploração espacial, em que satélites antigos não precisam necessariamente ser abandonados quando enfrentam problemas. No futuro, naves robóticas poderiam consertar equipamentos, abastecer satélites ou levá-los para novas órbitas. 

FONTES: SUPERINTERESSANTE E RN176