Especialistas alertam sobre os perigos de caracóis no Brasil e como identificá-los

ROTANEWS176 10/05/2026 07:20

Reprodução/Foto-RN176 Caramujo africano invasor (Achatina fulica) rastejando sobre madeira (Foto: Instagram)© Foto: Instagram

Apesar de aparentarem ser inofensivos e lentos, nem todos os caracóis são seguros — algumas espécies representam um risco à saúde humana. É fundamental saber distinguir esses animais: conforme a professora Maria Júlia Martins Silva, do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília, há diferenças visuais entre espécies nativas seguras e as invasoras perigosas.

Do ponto de vista da saúde pública, existem dois grupos principais de caracóis associados a doenças no Brasil. O infectologista Fernando Silveira, do grupo Mantevida, esclarece que o caramujo africano Achatina fulica pode hospedar um parasita que causa a angiostrongilíase, com sintomas que vão de dor abdominal a meningite.

“O maior risco está nos alimentos: verduras e legumes contaminados pelo muco do caracol que não foram bem lavados podem transmitir o parasita”, afirma. A espécie tem uma concha marrom com listras amareladas, entrada cortante e ponta afilada.

Outro grupo, os caramujos de água doce do gênero Biomphalaria, está relacionado à esquistossomose, uma doença mais prevalente no Brasil em número de casos. O erro comum é pensar que basta evitar tocar o animal. “O parasita não está no caramujo em si, mas é liberado na água. Quando alguém entra em contato com essa água, as larvas penetram na pele”, explica Silveira. Ou seja, no caso da esquistossomose, lavar alimentos não ajuda. O perigo está no contato com água contaminada.

Os caracóis nativos, como Megalobulimus sp., têm concha marrom claro, borda arredondada e cume mais arredondado. “Cada organismo tem um papel no equilíbrio ambiental. A população deve buscar informações antes de retirar indiscriminadamente qualquer animal ou planta do ecossistema”, diz Maria Júlia. O medo leva muitos a eliminar qualquer caracol que encontram, o que pode prejudicar espécies nativas importantes para o equilíbrio ecológico.

RISCO REAL, PÂNICO EXAGERADO E PREVENÇÃO CORRETA

Há um problema na forma como o tema é abordado: enquanto o caramujo africano gera alarde, a esquistossomose, muito mais comum, recebe menos atenção. “O risco existe e não deve ser descartado, mas é frequentemente mal comunicado, gerando tanto minimização quanto pânico desnecessário”, afirma o infectologista.

Na prática, casos graves ligados ao caramujo africano são menos frequentes. O risco aumenta em situações específicas, como manipulação sem proteção ou consumo de alimentos mal higienizados. Já a esquistossomose continua sendo um problema estrutural, ligado à falta de saneamento básico.

Maria Júlia reforça que a desinformação é um dos principais problemas. “Espécies invasoras têm comportamento de ocupação rápida e comprometem a fauna e flora nativas, mas isso não significa que todos os caracóis devem ser eliminados”, diz.

CARACOL: COMO REDUZIR RISCO DE CONTAMINAÇÃO

  • Não tocar em caramujos, especialmente o africano.
  • Higienizar corretamente verduras.
  • Evitar contato com água doce suspeita em áreas endêmicas.
  • Buscar informação antes de eliminar qualquer espécie.

COMO DESCARTAR CORRETAMENTE O CARAMUJO AFRICANO

O manejo do caramujo africano exige cuidado para evitar contaminação. A recomendação é usar luvas ou sacos plásticos para recolher os animais, sem tocá-los diretamente. Após a coleta, devem ser colocados em um recipiente e mortos com solução de água sanitária, evitando métodos inadequados como esmagamento, que pode espalhar ovos e aumentar a infestação.

O descarte deve ser feito em lixo bem vedado. Também é importante lavar bem as mãos e os objetos utilizados no processo. Além disso, vale lembrar: o caramujo africano não surgiu por acaso. Foi trazido ao Brasil legalmente para consumo, mas acabou sendo descartado na natureza, causando o desequilíbrio atual. Ignorar esse contexto e agir por impulso só piora o problema.

No fim das contas, o maior risco envolvendo caracóis no Brasil não está apenas nos animais em si, mas na desinformação sobre eles. Confundir espécies, ignorar formas de contaminação e adotar medidas erradas de prevenção pode aumentar, e não reduzir, a exposição a doenças. A orientação dos especialistas é clara: observar, identificar e agir com critério. Eliminar indiscriminadamente, ignorar cuidados básicos ou subestimar os riscos são atitudes que podem ter consequências tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.

FONTE: PAIPEE