ROTANEWS176 08/07/2026 10:03
Pela primeira vez na história do Palácio Bourbon, um colóquio dedicado aos OVNIs reuniu membros do parlamento, cientistas e pesquisadores para tirar o fenômeno da fantasia e trazê-lo de volta ao domínio da ciência.

Reprodução/Foto-RN176 O fenômeno OVNI tem sido debatido na Assembleia Nacional Francesa (Imagem IA)
O antigo fenômeno dos OVNIs, apelidado de PAN na França — Phénomènes Aérospatiaux Non identifiés (Fenômenos Aéreos Não Identificados) —, ganhou destaque na Assembleia Nacional Francesa na segunda-feira, 29 de junho, com o objetivo de uma abordagem racional. O colóquio, realizado no Salão Victor-Hugo do Palácio Bourbon, das 15h às 19h, ressaltou algo que vem sendo defendido na França há quase cinco décadas: que o estudo do fenômeno só faz sentido se for abordado cientificamente, e não por meio do sensacionalismo.
O evento, intitulado “Pesquisa sobre Fenômenos Aéreos Não Identificados (PAN), Além das Fantasias“, foi organizado por dois parlamentares de origens políticas opostas: Arnaud Saint-Martin, deputado por Seine-et-Marne pelo partido La France Insoumise (LFI), sociólogo de formação e astrônomo amador, que abriu o evento; e Pierre Henriet, deputado pelo grupo Horizons. O fato de dois parlamentares de blocos opostos em praticamente todas as outras questões concordarem sobre a necessidade de rigor científico no estudo de OVNIs diz muito sobre o estado atual da comunicação científica e a maturidade das instituições francesas nessa matéria.
A abordagem do colóquio, na verdade, representa um afastamento deliberado da estratégia dos EUA. Enquanto Washington optou por um caminho cada vez mais irracional — encontros com extraterrestres, seres interdimensionais e a aplicação de tecnologia não humana versus a desclassificação massiva de documentos — o portal PURSUE do Pentágono, sucessivos lotes de arquivos liberados e comparecimentos perante o Capitólio — que não comprovam nenhuma das alegações dos denunciantes, a França escolheu o caminho oposto: convocar a comunidade científica e parlamentar para, em primeiro lugar, realizar uma avaliação rigorosa do estado do conhecimento a partir de uma perspectiva metodológica. Henriet resumiu isso em declarações ao canal parlamentar LCP: era necessário mostrar que “há uma lógica por trás de tudo isso“. Não se trata de abrir gavetas, mas de organizar o que já se sabe. Em outras palavras, não se trata simplesmente de divulgar documentos, como faz o governo Trump.
O colóquio contou com a presença de pesquisadores do GEIPAN (a organização francesa oficial dedicada ao fenômeno), representantes do Ministério das Forças Armadas, o especialista em gestão de crises Sylvain Maisonneuve, autor do livro “OVNIs, a Investigação Desclassificada” (Albin Michel), e um grande grupo de sociólogos — Pierre Lagrange, Jérôme Lamy e Dominique Pinsolle — especializados no estudo social do fenômeno. Também participaram o veículo de mídia amadora francês Sentinel News e a comissão Sigma2 da 3AF, a Associação Francesa de Aeronáutica e Astronáutica, que há mais de duas décadas analisa os dados técnicos das observações mais incomuns, incluindo os vídeos do Pentágono.
O próprio Saint-Martin, que inaugurou o evento, enfatizou aos presentes a necessidade de livrar o fenômeno do fardo do ridículo que historicamente o acompanha nos cargos políticos.
O colóquio na Assembleia Nacional não parte, portanto, do zero: faz parte de uma linha de trabalho que começou em 1977 com o GEPAN e passou pelo impacto global da COMETA (sigla em francês para Comitê de Estudos Avançados) em 1999. O que muda agora é o cenário: pela primeira vez, esse esforço é transferido diretamente para o centro do poder legislativo.
O diretor da GEIPAN, Frédéric Courtade, enfatizou que a missão do seu grupo é “estruturada em torno do fornecimento de informações a todos, a fim de conter as críticas“, o que inclui a abertura dos arquivos ao público em geral. Seu grupo definiu uma estrutura precisa para a classificação de avistamentos não identificados (PANs), que incluem objetos voadores não identificados (OVNIs). A cada ano, o grupo lida com entre algumas dezenas e 200 casos de OVNIs. Ele explicou que 3% dos avistamentos permanecem sem explicação.
Michael Vaillant, pesquisador de dados especializado no estudo de fenômenos não identificados, acredita ser essencial “recolocar a ciência no centro” do estudo desses fenômenos. Ele considera que o estabelecimento de padrões internacionais permitiria o surgimento de uma “nova ciência” focada na explicação de fenômenos não identificados.
“O verdadeiro problema é a nossa obsessão em encontrar o irracional“, interrompeu o antropólogo Pierre Lagrange, que acredita que “a noção de teorias da conspiração começou a ganhar terreno na sociedade desde a década de 1990, com uma transformação na relação com a ciência“.
O resultado, em todo caso, é uma história com consequências de longo alcance: o fenômeno dos OVNIs está saltando da esfera quase exclusivamente americana — o Pentágono, o Congresso, o PURSUE — para um segundo ator institucional importante, a França, com sua própria tradição, seu próprio corpo científico e seu próprio ritmo. Enquanto Washington transformou a desclassificação em um espetáculo midiático, Paris opta por um debate parlamentar tranquilo. Duas abordagens, um reconhecimento subjacente: o fenômeno não pode mais ser ignorado pelas instituições. A Europa, com a França na vanguarda, começa a ocupar seu lugar nessa conversa.
FONTES: Fonte OVNIHOJE


















