Como os macacos aprenderam a furtar?

VEJA E ROTANEWS176 2705/2017 20h09

Segundo pesquisa, a habilidade pode ser ‘tradição’ de alguns animais. Compreendê-la pode ajudar a decifrar as origens do comportamento em ancestrais humanos

1Reprodução/Foto-RN176 Macaco segura um óculos de um turista no templo Uluwatu, Bali (Reprodução/VEJA)

Visitantes do Templo de Uluwatu na ilha de Bali, na Indonésia, enfrentam furtos e extorsões há alguns anos. Os ladrões? Macacos da espécie Macaca fascicularis, típica do sudeste asiático. Ao longo do tempo, eles ficaram craques em surrupiar objetos que pertencem aos turistas, como óculos, chapéus, chinelos e até joias e só os devolvem em troca de alimentos. Mas não é qualquer tipo de comida que os satisfaz. Muitas vezes, banana ou cereais oferecidos pelos funcionários do templo são rejeitados como recompensa. É preciso saber exatamente do que eles gostam.

Apesar de o comportamento ter sido estudado em cativeiro, uma análise liderada pela primatologista Fany Brotcorne, da Universidade de Liège, na Bélgica, foi a primeira a investigá-lo no ambiente natural, para descobrir como e por que os furtos em troca de alimentos se espalharam entre os macacos. Os resultados, publicados na revista científica Primates na última semana, indicam que a atitude é transmitida pelos animais. Segundo os pesquisadores, a prática de furto e extorsão pode ser uma nova tradição comportamental da espécie e compreender seu funcionamento deve ajudar a decifrar como as práticas evoluíram em ancestrais humanos.

Furtos e a habilidade de trocar objetos (às vezes à força) são características que costumam ser reconhecidas como exclusivamente humanas. Os comportamentos são pouco estudados em espécies animais e, para compreender como os macacos de Bali aprenderam a furtar e trocar os objetos de turistas por alimentos, a equipe liderada por Brotcorne, composta de biólogos, antropólogos e psicólogos, resolveu acompanhar e mapear o hábito nos animais.

Durante quatro meses de 2010, os cientistas  mapearam o comportamento de quatro grupos de Macaca fascicularis que residiam nas proximidades do templo. Em todas as populações os pesquisadores registraram o roubo e extorsão, sendo que nos dois agrupamentos que tinham interações mais frequentes com humanos foram registrados maiores quantidades de furtos. Nos anos seguintes, os cientistas observaram também um quinto grupo, que passou a residir perto do templo e aprendeu a técnica com os macacos que já viviam no local.

Os pesquisadores constataram que a técnica aprendida pelos macacos está diretamente relacionada à interação com os humanos —  quanto mais tempo os animais convivem com os visitantes, mais eles desenvolvem os furtos e transmitem a técnica para gerações futuras do bando. Outra descoberta foi que, quanto maior a presença de machos jovens nos bandos, mais frequentes eram os roubos.

A partir das observações, a equipe concluiu que o comportamento é espontâneo, ou seja, não é inato, mas é um aprendizado cognitivo passado de indivíduo para indivíduo. Depois de assimilado, torna-se um costume dentro dos grupos. No entanto, em outros templos de Bali cheios de turistas e macacos, a ação não ocorre, o que pode ser um indício de uma “tradição” dos macacos do local.

Para entender melhor esses roubos, os cientistas pretendem fazer uma pesquisa mais extensa, com mais macacos de diferentes localidades.