Geopolítica e a Nova Ordem Mundial

ROTANEWS176 29/01/2024 05:00                                                                                                                              Por Daniel Schnaider

Poderá o ‘Wilsonismo’ sobreviver a Realpolitik?

 

Reprodução/Foto-RN176 Geopolítica e a Nova Ordem Mundial – FreePik

Woodrow Wilson, o 28º Presidente dos Estados Unidos, desempenhou um papel fundamental na reformulação da ordem mundial com sua filosofia de “Wilsonismo”. Sua visão, particularmente articulada nos Quatorze Pontos apresentados em 1918, foi um divisor de águas na diplomacia internacional. Wilson defendia a autodeterminação dos povos, a transparência nas negociações internacionais, e a criação de uma comunidade mundial baseada na cooperação e no entendimento mútuo, em contraste com a diplomacia secreta e as alianças mutáveis que caracterizavam a política externa da época.

O ponto culminante dessa visão foi a proposta da Liga das Nações, um precursor da Organização das Nações Unidas. Embora nem todos os seus ideais tenham sido implementados imediatamente ou na íntegra, o Wilsonismo influenciou profundamente os princípios e práticas da política externa global, estabelecendo as bases para a ordem internacional pós-Primeira e Segunda Guerra Mundial e moldando significativamente as relações internacionais no século XX.

Antes da ascensão do Wilsonismo, a ordem mundial era predominantemente guiada pelo conceito de “Realpolitik”, uma abordagem da política externa centrada em interesses práticos e poder. Originária do século XIX e fortemente associada a figuras como Otto von Bismarck, chanceler da Prússia, a Realpolitik enfatizava a necessidade de poder e segurança do Estado acima de tudo, com decisões baseadas em uma avaliação fria dos interesses nacionais, ao invés de ideais ou normas éticas.

Essa abordagem resultava frequentemente em alianças e acordos estratégicos, diplomacia secreta, e um equilíbrio de poder que era mantido por meio da rivalidade e, ocasionalmente, do conflito entre as nações. A Realpolitik moldou significativamente as relações internacionais na Europa, especialmente durante o período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, um tempo marcado por tensões crescentes, corrida armamentista e um complexo sistema de alianças que, em última análise, contribuiu para a eclosão do conflito. O contraste entre a natureza pragmática da Realpolitik e os ideais mais elevados do Wilsonismo reflete uma mudança fundamental na percepção e na prática da política internacional.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a ascensão dos Estados Unidos como superpotência, o cenário global passou por uma transformação marcante, com muitas das decisões e políticas internacionais dos EUA refletindo, ao menos em parte, os princípios do Wilsonismo.

A vitória decisiva dos Aliados, culminando com a rendição incondicional do Japão e o impacto monumental do Plano Marshall na reconstrução da Europa, exemplificam a influência crescente dos Estados Unidos no cenário mundial. Este período testemunhou um movimento em direção à promoção da democracia, do livre comércio e da cooperação internacional, alinhado com a visão de Woodrow Wilson para a ordem mundial.

No entanto, os benefícios e a influência do Wilsonismo enfrentam atualmente uma ameaça histórica significativa com o surgimento de um novo eixo de poder composto por nações como China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Este grupo de países desafia abertamente os valores fundamentais promovidos pelo Wilsonismo, como a democracia, a liberdade individual, o livre comércio e a ordem mundial baseada em regras. Estas nações, cada uma com suas próprias agendas e estratégias políticas, estão unidas em sua busca por uma ordem mundial alternativa, que está mais alinhada com seus interesses nacionais e ideologias autoritárias, ou seja, a volta do Realpolitik.

A China, com sua ascensão econômica e militar, promove um modelo alternativo de desenvolvimento e governança, focado no controle estatal e na influência global através de iniciativas como o “Belt and Road”. A Rússia, sob a liderança de Vladimir Putin, tem desestabilizado a ordem internacional através de intervenções militares em nações soberanas e campanhas de desinformação. O Irã, igualmente, desafia as normas internacionais com seu programa nuclear e apoio a organizações terroristas. Juntos, estes países representam uma ameaça significativa aos valores democráticos estabelecidos, sinalizando uma potencial reconfiguração do equilíbrio global de poder e das práticas diplomáticas.

Essa reversão exige uma série de medidas estratégicas e colaborativas. Primeiramente, é fundamental o surgimento de uma nova geração de líderes globais, comprometidos com a defesa e promoção dos valores democráticos. Paralelamente, é essencial reduzir o custo do governo americano em particular para aumentar a eficiência e eficácia em suas iniciativas internacionais.

O fortalecimento das relações entre o Ocidente e a Índia, um ator democrático chave na Ásia, também se mostra crucial. Aumento do orçamento militar da União Europeia e do Japão. A formação de um bloco de nações que compartilham e defendem valores democráticos e liberais pode ser um contraponto significativo às ambições autoritárias.

Por fim, a implementação de um plano ao estilo Marshall, destinado a apoiar as democracias em risco e fomentar novas, poderia fornecer o apoio necessário para sustentar e fortalecer regimes democráticos vulneráveis. Estas ações por mais que complexas, realizadas de forma coordenada e decisiva, podem conter a expansão do autoritarismo.

O reconhecimento antecipado do potencial fracasso dessas iniciativas é um alerta para os possíveis tempos sombrios que podem marcar o século XXI. Esta consciência não só nos alerta, mas também deve nos impulsionar à ação para evitar a repetição dos erros do passado e garantir um futuro mais promissor. Precisamos encontrar o equilíbrio internacional entre Wilsonismo e Realpolitik ou a primeira metade do século XXI poderá ser pior do que sua paralela no século XX.

FONTE: IG