Rafaela marca frustração olímpica na pele e ainda chora punição polêmica

Um mês depois de lutar em Londres, judoca mostra nova tatuagem, critica regra, se emociona e revela que não consegue assistir à luta da eliminação

G1 E ROTANEWS176  30/08/2012 11h58                                                                                                                Por Raphael Andriolo

Um golpe proibido. Uma penalidade. E o trabalho de 15 anos adiado. As Olimpíadas já estão marcadas na vida e na pele de Rafaela Silva. Os anéis olímpicos ainda cicatrizam no braço da menina de 20 anos, judoca desde os cinco, tatuado há uma semana com a frase: “Só Deus sabe o quanto eu sofri e o que eu fiz pra chegar até aqui”. O “aqui”, no caso, são os Jogos de Londres. No dia 30 de julho, a estreante foi protagonista – não como ela queria. Acordou se sentindo bem. Venceu a primeira luta e iniciou da mesma forma a segunda. Mas bastou uma catada de perna para que o mundo desmoronasse. Em segundos intermináveis, a carioca saiu de uma boa vantagem para a desclassificação. Punição máxima e um choro copioso de quem não acreditava no que estava acontecendo.

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Reprodução/Foto-RN176 Rafaela Silva mostra a ‘tatuagem olímpica’, feita há uma semana (Foto: Raphael Andriolo / Globoesporte.com)

Um mês depois, Rafaela não consegue esquecer o “pesadelo” que viveu e, pelo visto, ainda está vivendo. A imagem da luta não sai da sua cabeça. Nem mesmo as férias e o apoio dos amigos e familiares fizeram a jovem nascida e criada na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio de Janeiro, esquecer o passado recente. As lágrimas voltaram ao rosto na primeira entrevista após o desembarque da equipe de judô no Brasil. Rafaela revelou que ainda não conseguiu ver a luta que a eliminou em Londres.

– Não quero ficar vendo. Vai ser difícil. Vem essa cena na minha cabeça toda hora. Ainda dói bastante – disse, chorando, a vice-campeã mundial, que também disparou contra a regra que proíbe a catada de perna: “Essa regra é uma palhaçada”.

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Reprodução/Foto-RN176 Rafaela repete o golpe (kata-otoshi) que a eliminou dos Jogos (Foto: Raphael Andriolo / Globoesporte.com)

Não bastasse a derrota para a húngara Hedvig Karakas nas oitavas de final da categoria leve (57kg) e a desclassificação por um golpe ilegal, Rafaela Silva foi alvo de pesadas críticas nas redes sociais. A judoca foi acusada de fazer “jogo sujo”, “não ter espírito olímpico” e recebeuofensas racistas. A resposta imediata foi dada. A atleta, que nunca havia sofrido preconceito, rebateu com palavrões e mais tarde se arrependeu – apenas dos xingamentos, não do revide.

– Acho que eu errei. Só acho que eu não deveria ter xingado, mas não me arrependo de ter falado. O racismo nem me ofendeu tanto. Aqui na academia tem branco, preto, pobre, gente com dinheiro e todo mundo sempre se dá bem – lembrou a judoca, que ficou contente com o apoio recebido por grandes nomes do esporte, como Neymar e Gustavo Kuerten.

Essa regra (que proíbe a catada de perna) é uma palhaçada.

De volta aos treinos há uma semana, Rafaela luta para deixar Londres no passado e decidir o seu futuro para os Jogos do Rio de Janeiro. No início de outubro, a atleta fará sua primeira competição entre os meio-médios (63kg), no Grand Prix de Abu Dhabi, e só depois estudará com a Confederação Brasileira de Judô se iniciará o ciclo olímpico para 2016 na categoria de cima.

Sentada no tatame da academia do treinador Geraldo Bernardes, Rafaela Silva falou por mais de uma hora. Avaliou, criticou, chorou, mas secou o rosto, colocou o quimono e, após a entrevista, foi para o treino que estava rolando ao lado. O sorriso voltou ao seu rosto. Pode ser o primeiro passo para 2016.

– Coloquei na minha cabeça que estaria nas Olimpíadas de Londres e traria uma medalha. Mas não deu. Agora, que a minha medalha venha aqui dentro de casa.

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 Reprodução/Foto-RN176 Rafaela acompanha o treino durante a entrevista (Foto: Raphael Andriolo / Globoesporte.com)

Confira a entrevista completa:

GLOBOESPORTE.COM: Qual a avaliação que você faz dos Jogos de Londres?
RAFAELA SILVA: Serviu bastante como experiência. Eu estava me sentindo bem, treinei novos golpes e tinha recursos. Parecia que era uma competição normal. Eu estava com uma cabeça boa. Quando eu cheguei, vi que era bem diferente de tudo. Ginásio lotado, torcida gritando, as pessoas conheciam e falavam os nomes dos golpes. Ainda não tinha sentido aquela coisa, só na área de aquecimento, quando chamaram meu nome, foi que a ficha caiu. Num geral, foi um resultado bem positivo. Nas Olimpíadas, tudo pode acontecer. Vários favoritos caíram. Ganha quem está com mais vontade.

Como foi o golpe proibido que te eliminou das Olimpíadas?
– Eu entrei e senti a adversária nas minhas costas. Senti que ela tinha desequilibrado, por isso eu meti a mão para ajudar. Os três árbitros deram a pontuação, e o de fora disse que não foi e pediu para marcar o hansokumake (punição que elimina o atleta da luta).

Você achou que seria eliminada? Como foi quando se levantou e tomou a punição?
– Quando eu joguei, não vi como a húngara caiu. Achei que o juíz fosse mudar a pontuação. Mas foi quando eu vi o árbitro da mesa conversando com o central e ele fez o gesto da mão, vi que ele estava falando de hansokumake. Olhei para a Rosi (Rosicléia Campos, treinadora) e ninguém estava entendendo nada, nem a adversária. Quando ele tirou o wazari e deu a penalidade, nem ela acreditou. E eu já estava com outra cabeça, pensando no que iria fazer no resto da luta. Depois, a húngara passava por mim e ficava sem graça, virava o rosto.

Não quero ficar vendo (a luta). Vai ser difícil. Vem essa cena na minha cabeça toda hora. Ainda dói bastante”

Rafaela Silva

Você já assistiu ao vídeo da luta?
– Ainda não. Não quero ficar vendo. Na minha cabeça fica passando um monte de coisas. Às vezes fico em casa parada e essa cena das Olimpíadas aparece. Vai ser difícil. (chora ao falar sobre a luta). Vem essa cena na minha cabeça toda hora. Ainda dói bastante. Parece que foi no fim da semana passado (chora novamente). A única coisa das Olimpíadas que ficou na minha cabeça foi a segunda luta. Está sendo bastante chato. Mudo de humor toda hora. Às vezes estou bem, conversando com meus amigos, e de repente estou no meu canto, excluída.

O que você acha da regra que proíbe a catada de perna?
– Essa regra é uma palhaçada. O João Derly foi bicampeão mundial fazendo isso. O Flávio (Canto) fazia isso. Então, eu acho que é uma palhaçada. Nos golpes do judô, consta que é uma queda, e agora não pode fazer porque é uma nova regra. Mas eu já me adaptei. Foi a primeira competição que eu tomei hansoku.

O que você acha da utilização do replay nas lutas?
– É bastante polêmico. Na minha luta, eu catei a perna e tomei o hansokumake. Mas tiveram outras lutas que também tiveram catada de perna e as atletas não foram punidas. Não tem critério. O recurso é bom, ajuda, mas precisa ser melhor aplicado.

Você se sentiu prejudicada?
– O que me deixava mais chateada era que eu passava na competição e os técnicos e atletas dos outros países que me conhecem vinham falar comigo que não foi, que eu tinha todas as condições de chegar ao pódio. Mas não posso afirmar que me prejudicou, porque não sei se eu iria passar da próxima luta. É complicado.

Você esteve em uma polêmica no Twitter. Foi ofendida e respondeu com palavrões. Como foi?
– Eu tinha acabado de voltar da competição, a ficha ainda não tinha caído, e sentei no sofá do quarto. Desbloqueei meu celular e foi direto para a página do Twitter. Aparecia um monte de coisa o tempo inteiro. Eu estava de cabeça quente. Falaram um monte de coisa, que eu era uma vergonha para a minha família, que era uma macaca, que estava viajando às custas do dinheiro do povo. Como se eu não pagasse imposto, né? (chora) É gente que não tem o que fazer.

Você se arrepende de ter discutido com internautas?
– Acho que eu errei. Depois percebi que quem comentou não sabia nada de judô, só queria criticar por criticar. Só acho que eu não deveria ter xingado, mas não me arrependo de ter falado.

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Reprodução/Foto-RN176  Rafaela coloca o quimono e treina após a entrevista
(Foto: Raphael Andriolo / Globoesporte.com)

Você foi chamada de “macaca”. Já tinha sofrido racismo?
– Não. Foi bem complicado. Eu não tinha sofrido nada assim, nem perto disso. Achei ridículo. Se preto não pudesse lutar judô, o que o Teddy Riner (francês, pentacampeão mundial e campeão olímpico dos pesos-pesados em Londres) estaria fazendo? Mas o racismo nem me ofendeu tanto. Fiquei mais chateada mesmo com as críticas de quem não sabe judô, sobre impostos e sobre a minha família. Aqui na academia tem branco, preto, pobre, gente com dinheiro e todo mundo sempre se dá bem.

O que você achou quando ficou sabendo que Neymar e Guga saíram em sua defesa?
– Foi aí que eu comecei a voltar para o meu lugar. Tendo uma palavra deles, que são grandes atletas e entendem o que a gente passa. É muito bom receber palavras de carinho, apoio de amigos, família e deles também, que nem me conhecem, nem nunca me viram. E pelo que o Guga escreveu dava para ver que ele entendia do esporte.

O que fazer para superar Londres e se preparar para as Olimpíadas do Rio?
– Primeiro passo para 2016 vai ser assistir à luta. Acho que vou ter que trabalhar mesmo com a minha psicóloga. Mas essa competição é diferente, não é como um Grand Slam ou um Grand Prix que tem todo mês. As Olimpíadas são só daqui a quatro anos (chora). Coloquei na minha cabeça que estaria nas Olimpíadas de Londres e traria uma medalha. Mas não deu. Agora, que a minha medalha venha aqui dentro de casa.