Ampliar os laços de amizade e de confiança 

ROTANEWS176  28/03/2026  09:20 

ENCONTRO COM O MESTRE                                             

Por Dr. Daisaku Ikeda

Reprodução/Foto-RN176 Ikeda sensei dialoga calorosamente com os companheiros durante a cerimônia de inauguração do Centro Cultural da Suécia (Estocolmo, 3 jun. 1989). Dr. Daisaku Ikeda, ele foi; pacifista, filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista da SGI atualmente era o Mestre e Presidente da Soka Gakkai Internacional – SGI Foto: Seikyo Press

Nestes trechos de seus incentivos, Ikeda sensei discorre sobre pontos fundamentais para propagarmos o budismo na sociedade por meio de ações baseadas no humanismo

Sejam cidadãos responsáveis e exemplares

Dirigindo-se aos membros da Suécia, o presidente Ikeda descreve a postura essencial para praticar o Budismo Nichiren: ser uma pessoa que demonstre consideração pelos vizinhos, respeite a cultura e os costumes do país onde vive e propague o budismo num ritmo constante, sem pressa ou afobação.

Por se tratar de minha primeira visita à Suécia, gostaria de expor minha opinião sobre alguns pontos básicos.

Em primeiro lugar, espero que demonstrem estima pelos vizinhos. Não vivemos isolados; existimos como membros de uma coletividade. Precisamos ter consideração uns pelos outros. Esta é apenas uma questão de bom senso. Se simplesmente reivindicarmos nossos direitos ou aquilo que se ajuste à nossa conveniência, não estaremos sendo integrantes responsáveis da sociedade.

Nichiren Daishonin afirma: “Budismo é razão”.1 Como membros da SGI, que abraçam os ensinamentos de Nichiren Daishonin, é fundamental que sejamos coerentes e façamos uso do bom senso.

Espero que não apenas sejam atenciosos e educados com seus vizinhos, mas também com os vizinhos dos centros culturais e das sedes regionais da SGI onde muitos membros se reúnem. Ao avistarem os moradores da localidade, cumprimentem-nos de maneira alegre e agradável. Espero que tomem o máximo cuidado para não incomodar ou causar aborrecimentos a alguém nem deixar ninguém apreensivo. Mantendo continuamente esses sinceros esforços, com o tempo seguramente acabarão conquistando a compreensão das pessoas a respeito do Budismo de Nichiren Daishonin e converterão, de fato, este centro cultural numa verdadeira fortaleza da felicidade na comunidade.

Cultivar a confiança mútua, como semelhantes, é fator imprescindível. Lembrem-se de que, ao tranquilizarem as pessoas e conquistarem a estima e admiração delas mediante sua conduta exemplar como praticantes do Budismo Nichiren, estarão assegurando o fluxo do kosen-rufu na comunidade.

Por outro lado, se nunca cumprimentarem os moradores das proximidades do centro cultural e os incomodarem fazendo muito barulho tarde da noite ou de manhã bem cedo — ruídos provenientes de telefone tocando, pessoas entrando e saindo do local ou de carros e motocicletas chegando e partindo —, estarão infringindo as regras de boa vizinhança. Espero também que tomem cuidado para não falar muito alto nas ruas e imediações do centro cultural e para não deixar, inadvertidamente, o local sujo com bitucas de cigarro ou lixo.

Por mais maravilhosas que sejam suas palavras ou o conteúdo das nossas atividades, é por meio dessa conduta corriqueira que as pessoas os avaliam. Isso é válido em qualquer lugar. No passado, falhas como as citadas anteriormente dificultaram seriamente o progresso do kosen-rufu.

No budismo, o vocábulo “sutra” (kyo, em japonês) indica “escritura” ou “ensinamento”. Numa acepção mais ampla, significa “aquilo que expressa a vida de todos os seres” — ou seja, todas as nossas palavras e ações. Cada um de nós está “recitando” o sutra por meio das próprias palavras e ações. Nam-myoho-renge-kyo, nesse sentido, é o sutra supremo. Por sermos aqueles que abraçam o sutra mais elevado de todos, devemos nos empenhar ao máximo para aprimorar nossas palavras e ações.

O segundo ponto que gostaria de abordar é a importância de respeitar a cultura e os costumes do país onde vivem.

O Budismo de Nichiren Daishonin abarca o universo inteiro e ilumina igualmente a vida de todas as pessoas. Não se trata de uma religião japonesa, mas de uma religião para toda a humanidade. Como praticantes da Lei Mística, não é necessário nos agarrar à cultura, ao modo de pensar ou ao linguajar dos japoneses.

Devemos, obviamente, manter rigorosidade no tocante aos princípios fundamentais da fé e da prática; no entanto, a Suécia possui sua cultura e tradições, os próprios usos e costumes desenvolvidos ao longo de sua história. Contanto que essas tradições e costumes não contradigam os ensinamentos essenciais do budismo, é mais que natural que vocês, como suecos, valorizem essa herança. Ficar discutindo ou passar a impressão de uma postura rígida demais ou uma visão excessivamente estreita em relação a essas questões na realidade contraria o espírito de tolerância e a mentalidade aberta do Budismo Nichiren.

Espero que, com base nos ensinamentos de Nichiren Daishonin, vocês sejam bons cidadãos, sigam as leis e os costumes do país onde vivem e obtenham a confiança e aceitação de todos à sua volta.

O terceiro ponto que gostaria de abordar é que não sejam impacientes na propagação do budismo.

O Budismo Nichiren é o budismo da semeadura2 implícito no Sutra do Lótus. A base da nossa prática consiste em recitar Nam-myoho-renge-kyo, ir ao encontro das pessoas para interagir com elas e possibilitar que entrem em contato com a Lei Mística. Se elas começarão ou não a praticar é outra questão completamente diferente. Há duas maneiras pelas quais se pode plantar a semente da Lei: “plantar a semente permitindo que a pessoa ouça o ensinamento” (mompo geshu), que significa possibilitar que a pessoa ouça sobre o budismo, e “plantar a semente fazendo com que a pessoa tenha fé no ensinamento” (hosshin geshu),3 que significa habilitá-la a aceitar e ter fé no Gohonzon. Ambas são formas igualmente excelentes de propagação e produzem os mesmos benefícios.

A maioria das pessoas ainda não sabe nada a respeito dos ensinamentos ou sequer o nome, do Budismo Nichiren. Nossa missão se traduz em plantar a semente da Lei Mística — em outras palavras, a semente da paz e da felicidade — na vida delas. Em muitos casos, pelo simples ato de interagirmos com os outros como verdadeiros amigos e de nos comunicarmos de maneira sincera e aberta, nós os ajudaremos a formar um vínculo com o budismo. Também é importante que continuemos orando pela felicidade dessas pessoas. Posteriormente, podemos vir a ter a oportunidade de conversar com elas de um modo bastante natural sobre o “budismo da semeadura”.

Nunca, porém, entrem em discussões sobre a fé nem sejam insistentes a ponto de vocês e seu interlocutor acabarem se irritando e se aborrecendo. Simplesmente continuem acalentando o desejo sincero de que a pessoa em questão aceite este budismo. Não há necessidade de sermos impacientes ou nos sentirmos pressionados a fazer alguém iniciar a prática. Se auxiliarem alguém a formar uma ligação com o budismo, infalivelmente chegará o momento em que a semente que plantaram vai germinar e florir.

Extraído do discurso proferido na inauguração do Centro Cultural da Suécia, em 3 de junho de 1989.

* * *

kosen-rufu começa com as ações da vida cotidiana

O presidente Ikeda salienta que nossa revolução humana não se dá em algum cenário distante, mas se baseia em nossas ações e comportamento cotidianos, nas interações compassivas e afetuosas com as pessoas que fazem parte da nossa vida.

O filósofo francês Voltaire escreveu o seguinte sobre a felicidade: “Seja sábio pelo seu próprio bem. Seja compassivo com seus semelhantes. Construa a sua felicidade por meio da felicidade dos outros”.4 “Construa a sua felicidade por meio da felicidade dos outros” são palavras profundas, que se harmonizam com a nossa prática budista de nos empenhar pela nossa felicidade assim como pela felicidade do próximo. Não se pode encontrar a verdadeira felicidade na busca egoísta da felicidade apenas para si. Só podemos alcançar nossa felicidade por meio da prática inspirada pelo desejo de levar felicidade às outras pessoas, e essa é a razão pela qual essa ação constitui também o caminho mais sábio a ser seguido por nós.

Não há nada mais importante que nossos esforços e nossa conduta no dia a dia. É na vida diária que evidenciamos o brilho de nossa genuína humanidade. Jean-Jacques Rousseau, contemporâneo de Voltaire, declarou: “Desconfie de cosmopolitas que buscam deveres remotos em seus livros e negligenciam aqueles que se encontram mais próximos”.5 Discussões filosóficas profundas são excelentes, e ideais elevados, importantes. Explanações inspiradoras sobre os escritos de Nichiren Daishonin indiscutivelmente têm a sua função. No entanto, jamais devemos nos tornar ideólogos ocos, que proferem sublimes discursos sobre amor à humanidade apesar de não prezarem aqueles ao redor. Pessoas que fogem do trabalho árduo e ficam inebriadas com a própria retórica grandiloquente podem ter opinião elevada sobre si mesmas, porém, na realidade, estão longe de ser admiráveis. É fácil se deixar atrair por ideais abstratos, mas difícil desafiar as realidades do nosso cotidiano. Gostaria que, sustentando o magnânimo ideal do kosen-rufu, devotassem seus dias a empreender a prática efetiva de incentivar e motivar uma pessoa e, então, mais uma e mais outra a contribuir para o kosen-rufu. Essa é a prática, o trabalho árduo, de propagar a Lei Mística no mundo real.

Extraído do discurso proferido no Curso de Aprimoramento de Verão da Divisão dos Estudantes na província de Shizuoka, em 21 de julho de 1987.

Fonte:

IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 113-118.

Notas:

1. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. II, p. 99, 2017.

2. Budismo da semeadura: Budismo que planta as sementes do estado de buda, ou a causa para atingir o estado de buda, na vida das pessoas. Nos ensinamentos de Nichiren Daishonin, o budismo da semeadura indica o Budismo de Nichiren Daishonin, em contraste com o de Shakyamuni, que é denominado budismo da colheita. O budismo da colheita é o que consegue levar à iluminação só aqueles que receberam sementes da iluminação praticando os ensinamentos do Buda em existências anteriores. Em contrapartida, o budismo da semeadura implanta as sementes do estado de buda, ou Nam-myoho-renge-kyo, na vida daqueles que não tiveram ligação com o ensinamento do Buda em existências passadas, ou seja, as pessoas dos Últimos Dias da Lei.

3. Há duas maneiras de plantar as sementes do estado de buda: “Plantar as sementes permitindo que a pessoa ouça o ensinamento” e “plantar as sementes fazendo com que a pessoa tenha fé no ensinamento”. Em Anotações sobre Palavras e Frases do Sutra do Lótus, o grande mestre Miaole da China declara: “Quer a pessoa aceite ou rejeite o ensinamento, este penetra em seus ouvidos e, assim, ela estabelece um vínculo. E, então, concorde ou discorde dele, no fim a pessoa poderá alcançar a libertação por causa desse laço. “Plantar as sementes permitindo que a pessoa ouça o ensinamento”, portanto, significa que, pelo simples ato de ouvir a Lei, a pessoa cria a causa, ou semente, para atingir o estado de buda um dia, mesmo que o rejeite inicialmente.

4. TAKEUCHI, Kenji. Juhasseiki no Furansushisokai [Pensamento Francês do Século 18]. Tóquio: University of Tokyo Press, 1976. p. 421. Cf. VOLTAIRE. De Laliberté [Liberdade]. InDiscoursenverssurl’homme [Discurso em Verso sobre o Homem]. Traduzido do japonês.

5. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emile, or, On Education [Emílio ou da Educação]. Tradução: Barbara Foxley. Londres: J. M. Dent and Sons, Ltd., 1911. p. 7.

FONTE: JORNAL SEIKYO SHIMBUN=JSS