O som da esperança
ROTANEWS176 22/08/2026 08:15
RELATO DIRETO DA REDAÇÃO DO JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS
Guacira vence preconceitos e faz da música um instrumento de empoderamento

Reprodução/Foto-RN176 Guacira Fé do Nascimento. Na BSGI, é vice-responsável pela Divisão Feminina da RM Litoral Sul, Sub. Imigrantes, CGSP
A fé não está apenas em seu nome composto, é também o que orienta Guacira Fé do Nascimento, 56 anos, ao enfrentar os desafios com a vitória como objetivo. Nascida e residente em Itanhaém, litoral de São Paulo, SP, ela atua há dez anos, na vizinha Mongaguá, em um projeto musical com internos de uma unidade prisional masculina de regime semiaberto. Desde que começou a trabalhar na unidade, em 1992, quando ingressou no serviço público por concurso, ela construiu uma trajetória assinalada por grandes obstáculos ao longo desses mais de trinta anos. “Foi com a estratégia que nasce da prática da fé, e não da força física, que conquistei respeito”, afirma. Assim, segue avançando em seu campo profissional com generosas pitadas de SAL (sabedoria, alegria e leveza), marca da forma de ser e de viver das mulheres Soka no Brasil.
A convicção e as habilidades que sustentam a jornada de Guacira foram moldadas muito cedo. Integrante da Soka Gakkai desde os 6 anos, ela guarda na memória a recuperação da saúde da mãe, Nadir, no início da prática budista da família. “Eu também sofria com fortes crises de bronquite. Vencemos juntas. Para minha irmã, Poliana, e para mim, ela ensinou que, diante do Gohonzon e da recitação sincera do Nam-myoho-renge-kyo, encontraríamos sabedoria e coragem para vencer.” Outro aprendizado que ela carrega como precioso tesouro foi ter pertencido ao Grupo 2001, atual Sucessores Ikeda, e integrado a banda feminina Asas da Paz Kotekitai do Brasil. “Fui treinada, desde a infância e a juventude, pelas mãos de Ikeda sensei”, emociona-se. Mais tarde, casou-se e continuou investindo em seu aprimoramento, concluindo a graduação em serviço social, sempre determinada a oferecer o seu melhor.
Com conhecimentos básicos de música e canto coral, Guacira aceitou a proposta de formar o coral dos internos. “Sem perceber, encontrei ali minha missão”, ressalta. A partir de então, passou a compartilhar com os participantes histórias e episódios da Nova Revolução Humana, obra de autoria do Dr. Daisaku Ikeda, além de dialogar sobre humanismo, dignidade da vida e respeito mútuo. Ao notar a atenção dos 25 internos que compunham o coral, compreendeu que seria um caminho para pôr seu conhecimento a serviço da sociedade.
Em 2020, em meio à pandemia, foi promovida a supervisora de equipe técnica e primeira substituta da direção da unidade. Nesse período também, concluiu uma pós-graduação em gestão em inteligência e segurança pública. Dois anos mais tarde, retomou o trabalho com o coral, transformando-o num projeto estruturado, incluindo uma oficina de violão. O objetivo continuava o mesmo: promover reflexões sobre dignidade da vida, humanismo e respeito, atendendo por semestre aproximadamente sessenta pessoas da unidade, esclarece.
Vencer e vencer
Em 2023, teve uma grave crise de ansiedade. Até a prática de gongyo e daimoku se tornou difícil, relembra. Sem renunciar à fé, buscou ajuda profissional e transformou o desafio em crescimento. “Não apenas juntei os cacos; eu me reconstruí”, conta. Passou a viver com mais energia, alegria e tranquilidade, aprofundando a fé, a atuação na organização e nos estudos, concluindo pós-graduações em psicanálise e psicologia humanista. “O que me move a continuar são os ideais que aprendi na Soka Gakkai, que defende o respeito pela dignidade da vida e nos ensina a seguir com coragem”.
Com a vida energizada, no ano seguinte, a iniciativa do coral ganhou nome: Projeto Esperançar. Além do mais, foi selecionado para uma parceria com o Instituto Ação pela Paz, por meio do Projeto Semear. Em 2025, deixou o cargo comissionado devido a mudanças na direção da unidade, mas solicitou permanecer à frente do projeto. O que parecia um revés se tornou a oportunidade de expansão. Recebeu o apoio dos colegas, dos internos e da chefia, ampliando ainda mais o alcance do projeto. Hoje, Guacira é a única funcionária responsável pelo Projeto Esperançar, contando com quatro internos colaboradores. A iniciativa atende cerca de 130 internos por semestre, apresenta índices de frequência entre 97% e 100% e não registra ocorrências de indisciplina no espaço.
Quando lhe perguntam qual é o objetivo do projeto, responde sem hesitar: “Eliminar o ciclo da violência em nossa vida e em nossa sociedade, pois o kosen-rufu, a paz mundial, começa exatamente onde eu estou”. Ela venceu preconceitos em nome de um nobre propósito: fazer do seu trabalho uma contribuição social efetiva, assim como direciona Ikeda sensei em seu livro Família Criativa:
Considerar o trabalho apenas como uma forma de ajudar no orçamento e completar a renda familiar resultará em um círculo vicioso difícil de ser rompido. Gostaria que vocês considerassem o trabalho como um meio de autoaprimoramento, com o sentimento de que estão de alguma forma fazendo uma contribuição para a sociedade.1
Na localidade Soka em que atua, Guacira dedica-se às visitas e aos encontros nas principais cidades da Região Metropolitana (RM) Litoral Sul, percorrendo cerca de 70 quilômetros de uma ponta a outra. Além disso, compartilha seu conhecimento artístico como coordenadora do coral da RM. “Meu coração é só gratidão, pois conquistei a oportunidade de levar esperança às pessoas por meio da música e dos ideais de paz do humanismo Soka. Pode haver alegria maior?”
Guacira Fé do Nascimento, 56 anos. Policial penal. Na BSGI, é vice-responsável pela Divisão Feminina da RM Litoral Sul, Sub. Imigrantes, CGSP.
Nota:
- IKEDA, Daisaku. A Família Criativa. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2017. p. 51-52.
FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS



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