“Sou eu quem surge da terra!” 

ROTANEWS176 18/07/2026  09:10

ESPECIAL DIRETO DA REDAÇÃO DO JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS

Há 79 anos, o jovem Daisaku Ikeda conhecia Josei Toda e se convertia ao Budismo de Nichiren Daishonin, iniciando sua grandiosa jornada pelo kosen-rufu com base na relação de unicidade de mestre e discípulo

Reprodução/Foto-RN176 Ilustração mostra Daisaku Ikeda, em pé, em frente a Josei Toda, de costas, na primeira reunião de palestra da qual participou (14 ago. 1947). Ilustração Kenichiro Uchida

Era 1947, dois anos haviam se passado após o fim da Segunda Guerra Mundial e o Japão sofria com a destruição e as consequências do conflito. Um clima de desesperança e de incerteza pairava sobre o povo.

Josei Toda dedicava-se intensamente a reconstruir a Soka Gakkai e a propagar o Budismo de Nichiren Daishonin, objetivando transformar a realidade da sociedade. Em meio aos membros da organização, começaram a despontar jovens que aprendiam a alegria de realizar o shakubuku, como dois amigos que moravam no distrito Kamata, em Tóquio. Com pouco mais de 20 anos, eram colegas desde o ensino fundamental 1 e procuravam por amigos daquela época para convidá-los a participar das atividades, dentre eles o jovem Daisaku Ikeda, de 19 anos.

Os amigos foram várias vezes à casa dele, mas não conseguiram falar diretamente sobre a prática da fé. Para os jovens daquele período, além da cultura e da política, conversas sobre religião eram distantes da realidade. Quando entravam no quarto, viam a estante repleta de obras literárias de diversas épocas e lugares. Embora conhecessem alguns títulos e nomes de autores, não sabiam muito bem sobre o conteúdo delas.

Certo dia, percebendo o interesse do jovem Ikeda por filosofia, uma moça o convidou para uma reunião de palestra, dizendo que era uma “conversa sobre filosofia”. Ele indagou se seria uma palestra sobre Henri Bergson (1859–1941), filósofo francês por quem nutria admiração, e quem seria o palestrante. A amiga respondeu que seria Josei Toda e que se tratava de uma filosofia que elucidava fundamentalmente a vida. Ele concordou e disse que levaria amigos do seu grupo de estudos também ao encontro.

Na noite da atividade, 14 de agosto, os amigos vieram buscar o jovem Ikeda, mas ele estava esperando por dois colegas que o acompanhariam. Enquanto aguardava, sentia o cansaço decorrente de uma febre que havia surgido desde o fim da tarde. A saúde do rapaz se encontrava bastante debilitada nessa ocasião. Finalmente, os colegas chegaram e os cinco jovens foram caminhando pelas ruas sem iluminação até a casa da moça onde seria realizada a reunião.

Por volta das 20 horas, chegaram à residência e podia-se ouvir a voz animada de um homem de meia-idade, embora rouca. Cerca de vinte pessoas estavam sentadas em duas salas cujas divisórias haviam sido retiradas. Na parte da frente, um senhor de óculos com lentes grossas palestrava em tom calmo, mas vigoroso.

Encontro de vidas

Daisaku Ikeda e seus amigos achavam que seria uma reunião de jovens, mas havia também donas de casa e pessoas de idade que ouviam atentamente. A explanação de Toda sensei era sobre o escrito Estabelecer o Ensinamento para a Pacificação da Terra (Rissho Ankoku Ron). Uma moça lia o trecho original da obra e ele dava a explicação com veemência. À medida que ouviam, os três jovens perceberam que era uma palestra sobre o budismo. Ikeda sensei relembra esse momento:

O Sr. Toda, meu mestre, me aguardava como um pai afetuoso. Foi um momento solene, eterno, que abarcou as três existências. Foi o dia do juramento de um discípulo — o meu — de me tornar discípulo do Sr. Toda e de devotar minha vida ao kosen-rufu. (…)

Na explanação que ele fez nessa primeira vez que participei numa reunião, o Sr. Toda imprimiu forte paixão e determinação num alerta às pessoas. Foi um rugido do leão proclamando a essência do Budismo de Nichiren Daishonin. (…)

Após concluir sua explanação, o Sr. Toda iniciou um diálogo informal. Ele mastigava pastilhas de menta e se portava com naturalidade e descontração. Não demonstrou a mínima atitude de superioridade pretensiosa e arrogante que muitos falsos líderes políticos e religiosos exibem. Estava sendo ele mesmo. Embora aquele fosse o nosso primeiro encontro, senti-me à vontade para fazer qualquer pergunta que guardava em meu jovem coração. Lembro-me de ter arriscado, com certa intensidade, esta questão: “Senhor, qual é o modo correto de vida?”.

O Sr. Toda me deu uma resposta clara, com plena convicção, isenta de qualquer jogo intelectual ou desonestidade que obscurecesse o verdadeiro ponto de minha pergunta. Eu estava cansado de adultos que tratavam os jovens com uma superioridade paternalista, por isso, a sinceridade do Sr. Toda me tocou profundamente. Além disso, não suportava políticos e intelectuais que haviam cantado hinos em louvor à guerra, mas de repente se transformaram em pacifistas depois que os combates acabaram. O fato de o Sr. Toda ter sido perseguido pelas autoridades militares e passado dois anos encarcerado por sustentar suas crenças foi o fator decisivo para eu me tornar seu discípulo.1

Em determinado momento, o jovem Ikeda contemplava algo, com olhares atentos, deixando sua face inteiramente corada. Parecia estar impaciente, desejando pronunciar algo novamente. De súbito, levantou-se decidido e externou:

— Sensei, muito obrigado. Há um antigo ditado que diz: “Faz bem pensar mais uma vez, mesmo que concorde. É bom pensar novamente, mesmo que discorde”. Acreditando nas palavras do senhor ao me sugerir que como jovem estudasse e colocasse em ação, gostaria de segui-lo e me empenhar nos estudos. Nesse momento, gostaria de expressar meu sentimento de gratidão com um poema, embora não tenha nenhuma habilidade e tenha sido de improviso…2

Josei Toda concordou em silêncio. O rapaz fechou levemente os olhos e começou a declamar com sua voz sonora:

Ó viajante!

De onde vens?

E para onde irás?

A lua desce

no caos da madrugada,

mas vou andando

antes de o Sol nascer.

à procura de luz.

No desejo de varrer

as trevas de minh’alma,

a grande árvore

eu procuro

que nunca se abalou

na fúria da tempestade.

Neste encontro ideal,

sou eu quem

surge da terra!3

Todos ficaram surpresos. Para Josei Toda, especialmente, a última frase soou de forma muito significativa. “Sou eu quem surge da terra!” — era a missão dos bodisatvas da terra que surgiram nos Últimos Dias da Lei para propagar o ensinamento do budismo. Naturalmente, o jovem Ikeda não conhecia esse conceito. Ele retratava no verso o sentimento que carregava no coração ao observar a força vital da natureza demonstrada pelo nascimento vistoso das plantas e árvores verdejantes que, com a chegada da época certa, emergiam dos campos devastados pela guerra. Entretanto, Toda sensei pressentia que tudo aquilo havia sido místico: o encontro com aquele rapaz de 19 anos lembrava-o do que tivera com seu mestre, Tsunesaburo Makiguchi. “Se o budismo é certo, deverá surgir infalivelmente uma relação de mestre e discípulo entre as duas pessoas que infalivelmente deverão realizar uma revolução religiosa sem precedentes na história da humanidade”, era o que pensava Josei Toda.

Ikeda sensei recebeu o Gohonzon e se converteu ao Budismo Nichiren em 24 de agosto de 1947. Embora sua família, a princípio, não fosse a favor de sua prática, o jovem não hesitou, inspirado pela confiança que Josei Toda depositava nele, como afirma:

Ele confiava em mim, e me dizia: “Vamos, não hesite! Desafie seu espírito de procura comigo! Estude e pratique com coragem, assim como cabe a um jovem!”. Minha intuição de jovem dizia-me que podia seguir com segurança aquele homem que havia sido preso durante a guerra em defesa da paz e do budismo. Nesse sentido, 24 de agosto marcou meu ingresso na “Universidade Toda”. Uma vida dedicada à verdade tem início com a relação entre mestre e discípulo.4

Em pouco mais de dez anos de convívio, mestre e discípulo tiveram uma existência em perfeita harmonia e união, conquistando grandes feitos como a concretização de 750 mil famílias ao budismo, a Declaração pela Abolição das Armas Nucleares, em 1957, e a Cerimônia do Kosen-rufu, realizada em 16 de março de 1958.

Após o falecimento de Josei Toda, Ikeda sensei assumiu a terceira presidência da Soka Gakkai em 3 de maio de 1960. Em outubro daquele ano, partiu para a primeira viagem ao exterior a fim de propagar o budismo em diversos países, entre eles o Brasil. E, desde essa ocasião, vem se empenhando incansavelmente para cumprir os ideais do seu mestre e impulsionar o movimento pelo kosen-rufu. Suas inúmeras realizações vão desde a criação do sistema educacional Soka e escrever livros até a fundação de instituições como o Museu de Arte Fuji de Tóquio e a Associação de Concertos Min-On; dos diálogos com diversas personalidades mundiais às homenagens recebidas de cidades, universidades e outras instituições reconhecendo seus esforços pela paz, cultura e educação.

A sublime relação de mestre e discípulo, eternizada nos romances Revolução Humana e Nova Revolução Humana, é a base de todo esse desenvolvimento da Soka Gakkai e também da transformação de vida de milhões de pessoas em vários países por meio da prática do Budismo de Nichiren Daishonin.

Triunfo de mestre e discípulo

Trechos de ensaio da série “Os Escritos de Nichiren Daishonin e a Relação de Mestre e Discípulo”, de autoria do presidente Ikeda

Do ponto de vista da causalidade da Lei Mística, como membros da SGI, cada um de nós, por meio de alguma maravilhosa conexão cármica, escolheu nascer neste mundo para trabalhar em prol do kosen-rufu. Todos nós somos valorosos bodisatvas da terra que nascemos para lutar e vencer.

O primeiro encontro que tive com meu mestre, Josei Toda, segundo presidente da Soka Gakkai, ocorreu no dia 14 de agosto de 1947. Eu estava com 19 anos. Foi logo depois da Segunda Guerra Mundial, um período muito obscuro no Japão. Eu era um jovem comum que sofria de tuberculose crônica e me disseram que eu não viveria até os 30 anos. O sol somente começou a surgir em minha vida quando conheci Toda sensei, estudei o budismo da revolução humana e me foi confiada a missão pelo kosen-rufu. Jurei em meu coração: “Eu seguirei este mestre. Por ele, eu darei até mesmo a vida!” (…)

Da perspectiva da clara e penetrante lei budista de causa e efeito, não há nenhuma razão para ficar lamentando nem para chorar por causa do nosso carma; ao contrário, devemos enfrentar o desafio firmemente. De fato, devemos ter a determinação de reescrever nosso destino.

Josei Toda foi uma pessoa de incomparável coragem. Ser discípulo dele ajudou-me a superar todos os sentimentos de tristeza ou de autocomiseração. Ardia em meu coração uma enorme alegria de poder me empenhar com sinceridade pela causa do meu mestre de concretizar o kosen-rufu. Com a forte e conjunta decisão de mestre e discípulo servindo como a “causa” dos meus esforços, combati todos os obstáculos que apareciam no caminho.

Tanto no budismo como na vida, ter um professor ou um mestre pode ser uma maravilhosa causa para o crescimento. Encontrando um mestre da fé, atendendo ao seu chamado, lutando ao lado dele e gravando sua coragem e sabedoria em nossa vida, conseguimos romper a concha do nosso pequeno eu. Essa é a força motriz para a vitória e nos permite construir uma forte e ampla personalidade para o futuro.

Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.011, 14 nov. 2009, p. A5.

Dica de leitura

No livro Revolução Humana, v. 2, você conhece mais detalhes sobre o primeiro encontro do jovem Daisaku Ikeda com seu mestre, Josei Toda. Para mais informações, clique aqui.

Fonte:

Brasil Seikyo, ed. 1.951, 16 ago. 2008, p. B3.

Idem, ed. 2.574, 8 ago. 2021, p. 6 e 7.

IKEDA, Daisaku. Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 187-207, 2022.

Notas:

1. IKEDA, Daisaku. Pilares de Ouro Soka. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 51-55.

2. Idem. Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 205, 2022.

3. Ibidem, p. 206.

4. IKEDA, Daisaku. Pilares de Ouro Soka. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 63.

FONTE: JORNAL BRASIL SEIKYO=JBS